Regras do Clube da Dupla

A primeira regra do Clube da Dupla é: você não fala sobre o Clube da Dupla. Mas se ninguém fala, vira zona e o processo criativo toma nocaute. Então vamos lá:

1. Você não aprova ideias no Clube da Dupla;

2. Você não reprova ideias no Clube da Dupla;

3. Somente duas pessoas por dupla;

4. Uma dupla de cada vez;

5. Sem ego, sem filtro;

6. As duplas duram o tempo que for necessário;

7. Quando alguém gritar “para!”, der carteirada ou desertar, a dupla acaba;

8. Mesmo se for veterano no Clube da Dupla, você tem que ser humilde!

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Solteira sim, sem job nunca

O povo anda com medo de se comprometer. Vejo amigos enrolados até o pescoço no mesmo script: um, dois dates. A partir do terceiro job, a coisa começa a ficar esquisita. Será que é ok mandar whatsapp a qualquer hora? Ou chamar para uma festa na firma? É, as coisas parecem que estão ficando sérias.

E aí entra o problema do briefing: ninguém fala exatamente o que quer. Se existe possibilidade de contratação, o budget real ou se é só uma concorrência. Honestidade é caso raro, mas alinhar a expectativa das entregas é essencial para dar match também na vida real. Porque mandar mene é facinho, mas na hora de trocar textão as pessoas ficam com medo de se entregar.

Claro que todo mundo ama shippar os cases de sucesso, aqueles com cara de festival. Babar nas carreiras sólidas, de estagiário a VP com fotinho oficial de casamento. Mas ninguém tá disposto a se envolver de verdade. Quando as horas vão ficando mais extras, os amigos vão sentindo sua falta e o coração palpita se toca o celular, a geração Tinder se apavora. E no perfil dos mais saidinhos eles ainda têm coragem de admitir: “não namoro, faço freela.”

Créditos da imagem: Coisas com sentimentos

O corte

Incerto como teria de ser, duro como uma rajada de vento frio, daquelas que levantam sua roupa e quase te derrubam no chão.

Ele vem quando menos se espera. Seco, implacável. Não tem essa de transição lenta, de algo que você vai farejando – aquela famosa crise no relacionamento. Não: corte é corte. Quase como descobrir uma traição: você só toma conhecimento, atônito. E geralmente é o último a saber.

O corte é quando sua história é interrompida abruptamente. Às vezes seguido de uma escalada de tensão, mas na maior parte só atravessando seu enredo sem pedir licença. É aquele plot twist que joga para o alto as suas certezas, que balança sua cabeça e te tira, por alguns segundos, a firmeza sob os pés.

É quando bate a sensação de que você não é mais protagonista – porque não tem nada que você poderia ter feito para evitá-lo. Esse grande escritor sacana resolveu riscar do set o seu nome, entre tantos outros, então não dá nem pra pensar em você como vítima exclusiva de um grande vilão. Não é pessoal. Você estava na hora errada no cenário certo, sua história não fechou nas contas, e as suas palavras foram reduzidas a um número.

Incerto como teria de ser, duro como uma rajada de vento frio, daquelas que levantam sua roupa e quase te derrubam no chão. Mas não se engane, meu amigo: essa é a função dele. O corte é o ponto alto dos melhores roteiros, e o melhor agora está por vir.

5 dicas para não achar que está grávida todo mês

Miga, PARE COM A NOIA.

O medo da gravidez assombra as mulheres mais que o derretimento das calotas polares. Isso porque não é fácil ser mãe na nossa sociedade – muito menos de surpresa -, mas também porque a gente permanece levando a nossa vida sexual com menos responsabilidade e consciência do que poderia. Então, todo mês bate aquela culpa e você fica desesperada quando está chegando a hora de menstruar. Aqui vão as minhas dicas para dar um basta nessa noia mensal e viver seu ciclo com mais tranquilidade.

 

  1. Não corra riscos. Conheça seu método contraceptivo – e use direito SEMPRE.

Existe uma diversidade enorme de métodos contraceptivos, com taxas altíssimas de eficácia. Mas, para ser eficaz, você tem que fazer parte do grupo que faz o uso perfeito do método. Ou seja: no caso da pílula, tome todos os dias no mesmo horário e fique atenta a outros medicamentos que podem interferir na sua eficácia. Se você usa camisinha, coloque desde o início do contato sexual, e tire imediatamente depois da ejaculação. Para evitar neuras, teste depois a camisinha, apertando e até enchendo de água para ver que ela segurou tudinho lá dentro. Pesquise, conheça e confie no seu método. Ah, e usar mais de um ao mesmo tempo multiplica a eficácia deles, garantindo um soninho sem de bebê para você.

 

  1. Aprenda a observar o seu ciclo, ouça o seu corpo – e RELAXE!

Os sinais iniciais da gravidez são muito parecidos com os da TPM, então, não ache que seus peitos estão inchados de leite, que você está com enjoo, etc etc. Se você não toma pílula, pode observar pelo método sintotermal qual é a fase do ciclo em que você está e triplicar os cuidados quando estiver fértil. Para ter uma ideia, a cada ciclo você só pode efetivamente ficar grávida se transar em apenas alguns dias específicos, com no máximo 30% de chances de engravidar se transar sem contracepção quando está fértil. Então miga, PARE: não é tão fácil assim ficar grávida, e se você conhece seu ciclo, sabe dizer se realmente tem motivo para se preocupar.

 

  1. Não desespere e NÃO CONSULTE O DR. GOOGLE.

Você já está informada sobre os princípios básicos da concepção – e da contracepção. Por isso, agora que você provavelmente está na TPM (e muito mais sensível e com tendências a dramatizar a vida*), não vá ao Dr. Google. Porque certamente ele vai te dizer que é gravidez – ou câncer – o que não ajuda em nada em amenizar o desespero. Especialmente, não deixe para descobrir o sangramento de nidação neste momento.

 

  1. ESQUEÇA o sangramento de nidação.

A nidação é o processo em que o embrião se acopla ao endométrio para poder se desenvolver. Isso acontece uns 12 dias depois da fecundação, por isso, muitas mulheres que estão grávidas observam um pequeno sangramento mais ou menos na época de menstruar, mas não é menstruação.

Agora que você sabe disso, ESQUEÇA. Se você usou seu(s) método(s) contraceptivo(s) direitinho, não se arriscou no período fértil, e apareceu um sanguinho mequetrefe que ainda não é fluxo menstrual, RELAXA. Muitas mulheres (incluindo eu) recebem um teaser de menstruação alguns dias antes do fluxo, ele para, e só depois ela chega de vez. Considere isso um sinal que a menstruação está chegando, e fique longe da paranoia.

 

  1. Converse com seu parceiro ou uma amiga.

Pessoas de confiança podem ajudar você a pensar com calma e avaliar se, de fato, existe um risco de gravidez. Escolha alguém que você considera sensato e divida a angústia. Talvez você – mais uma vez – esteja dando voz àquela insegurança de sempre, e isso acaba propiciando os atrasos menstruais. Se, mesmo depois de avaliar calmamente os riscos, achar que pode estar grávida, faça um teste de farmácia e até um de sangue. Para que perder o sono? Tá na dúvida, descobre logo e segue a vida.

 

 

Em último caso, você tem escolha.

Por fim, precisamos falar sobre o aborto. Essa prática é considerada crime no Brasil, mas não é a proibição que vai fazer as mulheres pararem de ter autonomia sobre suas vidas. Se você engravidou e realmente não quer ser mãe agora, informe-se, procure opções e aconselhamento o mais seguro possível. Pessoas de confiança da área da saúde e da luta por direitos reprodutivos podem te orientar, como o Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, em São Paulo. Já as organizações Women on Waves e Women Help Women orientam e enviam medicamentos abortivos para mulheres em países onde o aborto é proibido. Muito importante: para evitar criar provas contra você, não fale sobre isso pela internet (do seu computador/logada nas suas contas) ou telefone. E mais importante de tudo: não esteja sozinha, não tome decisões precipitadas e não se culpe. Mais de 2 mil mulheres abortam todos os dias no Brasil, e esse é um assunto de saúde pública que o nosso país se recusa a tratar com seriedade.

 

*Cada mulher vive seu ciclo de um jeito, e estou falando a partir da minha experiência e conhecimento pessoal. Se você não vive a TPM assim, peço desculpas pela generalização, ok?

 

Leia mais:

Cartilha Fique Amiga Dela

O que as mulheres devem saber sobre Fertilidade

Nidação ou menstruação: saiba quais são as diferenças

Como funciona o aborto no Brasil e no mundo

‘Aborto já é livre no Brasil. Proibir é punir quem não tem dinheiro’, diz Drauzio Varella

Sangue bom: o tabu da menstruação

Pare de rejeitar sua menstruação e dê o próximo passo da sua liberdade

A menstruação é um grande tabu contemporâneo. Relegada a reclamações sobre cólicas, disfarçada em pedidos constrangidos de absorventes emprestados e considerada um mero sinal da não-gravidez, sobre a menstruação temos uma realidade:

Só pode falar se for para falar mal

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É só observarmos as palavras associadas a ela: todas muito degradantes e que fazem um panorama do imaginário social a respeito.

[Regras]       [Monstra]       [Chico]       [Visita]       [Incômodo]       [Aqueles dias]       [Cheiro de peixe]       [Dita cuja]

Quem nunca ouviu um “ew” ao falar sobre isso no colégio, ou se sentiu constrangida ao precisar pedir um absorvente emprestado?

Outro exemplo é a obsessão da indústria farmacêutica – e, por consequência, dos médicos formados na sua sombra – por patologizar o ciclo menstrual. Um dos mais alardeados ~benefícios~ dos anticoncepcionais hormonais é, justamente, o controle/a diminuição do fluxo menstrual, e até mesmo sua suspensão. Uma doença que pode ser remediada. Um fardo para o qual existem infinitos produtos específicos “anti-odor”, para você estar “sempre protegida”, “sempre seca”, etc.

Aliás, não se iluda: o sangramento da pausa do anticoncepcional não é menstruação. Ele se chama de sangramento de privação, e mantê-lo foi uma escolha deliberada da indústria para dar uma sensação de naturalidade ao uso do medicamento.

O que essa realidade ignora é que a menstruação é, de fato, um dos principais sinais de saúde do corpo feminino. E os problemas relacionados a ela são, na verdade, sinais de que o corpo está em desequilíbrio – importantíssimos na hora de avaliarmos nossa relação com o mundo: saúde, relacionamentos, trabalho, e até conosco mesmas. Com a supressão desses sintomas, já não identificamos os desequilíbrios – e os mascaramos.

De fato, pode ser muito difícil ter que lidar com os sintomas do período pré-menstrual e menstrual, ainda mais porque não temos o menor incentivo para isso. Além da má fama social, no trabalho e na escola/faculdade a menstruação também não é tratada com naturalidade. Intervalos e espaços de descompressão são raridade; saídas recorrentes para o banheiro são mal vistas; e nós mesmas nos cobramos por não estar 100% empenhadas nas questões exteriores.

Tudo isso porque, no sistema capitalista, exige-se das pessoas estarem sempre produtivas, como máquinas; e no caso das mulheres, também belas e disponíveis.

Por isso mesmo, a TPM e a menstruação acabam vistas como um período de descontrole; ou ainda uma “frescura”, uma “desculpa” para trabalhar menos. Uma “fraqueza” tipicamente feminina.

O fato é que menstruamos e temos que lidar com isso. Diante desse cenário, como viver melhor a sua menstruação? É possível se libertar de verdade desse “fardo”?

 

[continue lendo]

 

Absolveram o estuprador da USP e isso também é problema seu.

Daniel Tarciso da Silva Cardoso foi acusado de dopar e estuprar pelo menos seis mulheres na maior faculdade da América Latina. Ele também já matou um homem com oito tiros. Mas antes que você diga que ele é um louco descontrolado, aqui vão alguns argumentos pra te mostrar que o estupro, na verdade, ronda a vida das mulheres em tantos níveis e momentos que este está longe de ser um caso isolado, na verdade, ele é um retrato de como a nossa sociedade incentiva e acoberta o estupro. E isso inclui você também. Vem na minha:

  1. O estupro como fetiche

A cultura do estupro está plenamente estabelecida. Nos filmes, nas séries, nas propagandas e em nossos círculos sociais. Basta olhar os filmes pornôs, basta olhar a atitude dos criadores de conteúdo que envolve estupro.

Nós fetichizamos o estupro. Valorizamos a atitude do macho alfa de pensar no seu pinto como uma arma. Nas novelas, nas expressões que usamos:

“Seu arrombado.” “Vai se foder.” “Isso é falta de pica.” “Bota o pau na mesa.”

Olhe a linguagem que a gente usa no sexo. Você já leu contos eróticos na internet? Leia. Observe. Consentimento não é a palavra de ordem: o gostoso mesmo parece ser violar, dominar, conseguir fazer o que a outra pessoa não autorizou.

O sucesso 50 Tons de Cinza romantiza uma relação abusiva - que não tem nada a ver com BDSM – em que o consentimento passa longe.

O sucesso 50 Tons de Cinza romantiza uma relação abusiva – que não tem nada a ver com BDSM – em que o consentimento passa longe.

Bernardo Bertolucci combinou com Marlon Brando que a cena de estupro de Último Tango em Paris seria uma “surpresa” para arrancar a reação “como menina, e não como atriz” de Maria Schneider

 

  1. O estupro da nossa voz

Em 2013, somente 7,5% das vítimas de violência sexual registraram o crime na delegacia.[1]

Quando uma mulher denuncia um estupro, ninguém leva a sério. As primeiras perguntas são sempre: por que você estava lá? Você bebeu? Você aceitou sair com ele? Que roupa estava usando? E tantas outras.

Vemos tantos e tantos casos em que se tenta justificar o estupro, e mais além: questionar se de fato houve estupro. Porque a voz da mulher, na terrível tarefa de anunciar para o mundo que você foi violada, parece não ter valor nenhum.

“O fato de a estudante ter entrado no quarto de Cardoso “de livre e espontânea vontade” e ter dito a duas amigas, que estavam do lado de fora, “que ali permaneceria”, estariam entre os motivos para julgar improcedente a ação” do aluno da USP

Leia os comentários nas notícias sobre estupro. Ouça o que as pessoas falam quando alguém comenta um caso. Preste atenção na reação das autoridades em casos de estupro. Tente, nem que seja por um minuto, imaginar como seria se tivesse acontecido com você.

 

Maria Schneider já tinha acusado o diretor do filme muitos anos antes, mas o caso só ganhou repercussão quando Bertolucci admitiu o estupro.

Maria Schneider já tinha acusado o diretor do filme muitos anos antes, mas o caso só ganhou repercussão quando Bertolucci resolveu falar sobre isso.

 

  1. O estupro da insegurança

90% das mulheres têm medo de ser estupradas. Esse medo existe em apenas 42% dos homens.[2]

O teste mais simples pra ver como é diferente ser mulher e ter medo de ser estuprada 100% do tempo é o teste da calçada. Imagine a cena:

Você está sozinha(o) numa rua erma. De repente, ouve passos. Olha pra trás e “Ufa!”, é uma mulher.

Se você for homem, talvez seu “ufa” seja porque uma mulher jamais seria uma ameaça para você. Mas se você é mulher, definitivamente seu “ufa” vem simplesmente pelo fato de não ser um homem que poderia te assediar ou estuprar.

Viver como mulher te leva a pensar 4039 vezes mais que os homens antes de fazer coisas simples como sair para dar uma volta ou receber um eletricista em casa. Mesmo uma conversa a sós com um chefe homem pode ser intimidadora. E quando estamos entre mulheres, magicamente o espaço se torna mais seguro.

 

  1. O estupro das instituições

No RJ, só 6% dos acusados por estupro vão a julgamento[3].

Agora vamos falar sobre o desdobramento dos casos de estupro. Quantos estupradores são responsabilizados e cumprem pena? As universidades acobertam os casos, estudantes e professores estupram e continuam em suas atividades. Médicos, engenheiros, executivos. Quantos policiais estão aí para coibir a abertura de B.O.? Quantos delegados fazem juízo antes das investigações? Quantos juízes julgam mais por se identificar com o acusado que por ouvir a vítima?

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Foi o que disse o delegado mesmo com o depoimento da vítima e confissão dos acusados

Foi o que aconteceu na USP. Com tantos testemunhos – além do da própria vítima –, mesmo com os laudos psicológicos, psiquiátricos e do exame médico, o juiz achou por bem ignorar o que ela estava falando.

 

  1. O estupro do seu brother

“Na violência sexual no âmbito da violência doméstica, apenas 1% dos casos chegam a uma condenação.[4]” – Ana Rita Souza Prata, defensora pública do Estado de São Paulo

Outro ponto fundamental aqui é que os estupros não são feitos só por bandidos na calada da noite. Estupros são feitos por homens em seus variados espaços. Inclusive, como o estupro é uma demonstração de poder – e não de sexualidade -, a maior parte das vezes são cometidos por homens que a gente conhece. 70% dos casos, para ser mais precisa.

70% dos casos de estupro são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima.[5]

A gente precisa parar de achar que estupro é uma coisa que só acontece com as outras. Que é atitude de pessoas problemáticas, que a gente só precisa evitar cruzar com elas. O estupro acontece aqui, acontece agora e quem comete são os homens ao nosso redor.

Não é exagero dizer que todo homem é um estuprador em potencial. Simplesmente porque eles têm tantos incentivos para estuprarem e saírem ilesos, que potencialmente, poderiam fazer isso sem pensar duas vezes. E muitos, de fato, fazem.

Por isso, ser um homem que caminha ao lado do feminismo vai muito além de simplesmente “ser legal” e respeitar o “não” das mulheres: é preciso tomar partido nessa discussão, ajudar a desconstruir a cultura do estupro. Defender mulheres em situações constrangedoras, oferecer ajuda e se opor ao assédio, especialmente nos espaços masculinos em que isso é incentivado. Ouvir e respeitar a voz das mulheres, como você ouve, respeita e toma partido da voz dos seus amigos.

Ah, e não custa lembrar que as travestis que você encontra na noite, as mulheres negras que você objetifica, as crianças e adolescentes que você chama de novinhas, todas elas lidam diariamente com tudo isso em níveis escalonados. E quando você achar que alguma mulher está exagerando ou pegando pesado na crítica, lembre-se do vídeo do pernilongo:


Leia mais:

Justiça de SP absolve estudante de Medicina da USP acusado de estupro

A ciência do palavrão

Estupro: Uma violência de mil faces

“A vítima de estupro já chega na delegacia com culpa”

[1] Pesquisa Nacional de Vitimização, CRISP UFMG, 2013

[2] Pesquisa Datafolha para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2015

[3] Revista Época

[4] “A vítima de estupro já chega na delegacia com culpa”, da CartaCapital

[5] Pesquisa do Ipea, segundo a BBC

 

O que acontece quando você é feminista na internet

Na semana passada, um dos maiores blogs feministas do Brasil, o Escreva Lola Escreva, foi atacado por grupos masculinistas (sério, eles existem) e quase saiu do ar. E depois de uma conversa com outra blogueira maravilinda, resolvi compartilhar um pouco do que acontece quando você resolve ser feminista na rede, a partir da minha experiência com este blog e a página Falou Machão.

 

  1. Haters gonna hate

O termo hater (algo como “odiador”) é tão preciso como assustador. Da mesma forma que grupos ativistas de direitos humanos estão na internet, também estão aqueles que acham que feminismo é mimimi. Pior que isso, estão os citados masculinistas, grupos ativamente contra os direitos das mulheres. Além de compartilharem conteúdo defendendo estupros, pedofilia e todo tipo de violência, eles também se organizam para derrubar blogs e páginas que começam a se destacar. Eles fazem comentários odiosos, costumam usar termos como “meter a real” e criam muito – mas muito – conteúdo fake pra deslegitimar o movimento. Tem uma página do Facebook que eu sinceramente acho que se enquadra nesse naipe, a Feminismo real. Vejam e me digam o que acham, eu sinceramente duvido que haja um grupo feminista por trás dela, porque todos os argumentos são distorcidos e chegam a conclusões bizarras, além de não ter nenhuma referência a um lugar ou pessoas reais. Parece algo feito para reforçar estereótipos, preconceito e ódio. Então lidar com esse tipo de coisa pode se tornar diário. Aqui no blog eu só não aceito comentários de ódio, pronto; mas em casos como o da Lola, o assédio se torna caso de polícia (ameaças de morte, ligações na casa dela, vazamento de dados etc).

 

  1. Seus amigos ficam meio assim

Rola uma rotulagem complicada no seu círculo social. As pessoas ficam receosas de falar algo e você taxá-las de machista; algumas mandam indiretas toscas e várias delas querem te provar que você está exagerando. É o lance do “toda ação tem uma reação”, e no geral as pessoas se esforçam muito por acreditar que tudo no mundo anda bem. O lado positivo é que está aberto o debate e na verdade essas pessoas se interessaram pelo que você levantou; estão só esperando o que você tem a dizer. E se for pura picuinha, aos poucos você aprende o que vale a pena uma discussão e o que não vale. Mas ver alguns velhos amigos começando a abrir os olhos, por outro lado, é maravilhoso.

 

  1. Seus argumentos ficam melhores

Já que você tem que lidar com as críticas no mundo virtual e também no mundo real, você acaba ganhando mais habilidade nisso. Aos poucos, vai vendo que algumas críticas têm razão e contribuem para o que você cria. E vai entendendo melhor também o outro lado, entendendo como cada argumento se constrói e o melhor – como desconstruí-lo com muito mais facilidade, expondo os discursos de ódio em três, dois, um.

 

  1. Você ganha responsabilidades

Junto com os críticos, também aparecem as pessoas que curtem o que você escreve, acompanham suas criações e esperam sempre mais. São pessoas maravilhosas, que te ajudam a crescer e ser uma pessoa melhor. E elas estarão lá esperando – sua opinião, sua contribuição com o debate – e muitas vezes sua ajuda real. É muito comum mulheres em situação de violência ou precisando de qualquer outro apoio só encontrarem na internet alguém para compartilhar o que estão passando. Então, saber como lidar e como ajudar de verdade também é uma questão importante; nós acompanhamos histórias reais de pessoas reais com problemas reais. Para ajudar, só os contatinhos: órgãos governamentais e não governamentais de defesa dos direitos das mulheres, grupos de acolhida e militantes, advogadas, médicas, políticas feministas; além dos conhecimentos básicos sobre legislação – como o das maravilhosas Promotoras Legais Populares, podem ajudar. E aí você vai descobrindo uma maravilhosa rede de apoio. <3

 

  1. Você fica mais forte

A melhor parte de ser feminista na rede é que você descobre que não está sozinha nem louca. Você se informa melhor, encontra pessoas incríveis que te ajudam a crescer e a ser mais forte. Você descobre que falar sobre Feminismo é preciso para decidirmos o que fazer a respeito do machismo, seja coletivamente ou logo aí onde você está agora.

 

 

Leia também:

 

Escreva Lola Escreva, Eles não amam as mulheres, Violência não é sobre amor: dissecando a carta do assassino de Campinas.

Por que as pessoas sempre agem assim com você

Na homeopatia, cada pessoa tem um medicamento próprio; e o seu remédio é feito daquilo que daria, numa pessoa saudável, o sintoma que você tem*. Isso porque, às vezes, provar um pouquinho do veneno é o que faz a gente melhorar. E a diferença entre o remédio e o veneno, sabemos, é a dose.

Muitas vezes você tem bode das pessoas. Por que me tratam assim? Por que não me ouvem? Por que me dizem as coisas que eu mais odeio ouvir? Ora, bem, vou te dizer uma dura verdade: elas só fazem isso porque você deixa.

Você senta lá na cadeirinha da dócil, que aceita tudo, ou da impulsiva, que não sabe o que quer, ou qualquer outro rótulo que você se acostumou a ter. E abre espaço para as pessoas fazerem isso com você. Você toma o venenão todos os dias, por conta própria; e quando ele aparece vindo de uma outra pessoa, o gosto já é seu velho conhecido.

Quando alguém vem e, despretensiosamente, te dá um pouquinho daquele veneno, a carapuça serve. Você conhece a dança. E resolve colocar toda a culpa na outra pessoa. Ela é como as outras. Mas quem vestiu a máscara – desculpe – foi você. É porque você se coloca assim, sabe interagir dentro desse mecanismo. Você se trata assim, é o personagem que sabe interpretar. E a outra pessoa só está deixando isso ainda mais claro para você. Pode ser essa dosinha que você precisava para dizer: chega.

Se você não tomar suas doses diárias de autodepreciação, esquecer essa ideia que formou de você mesma, uma gotinha de veneno aleatória não vai fazer nem cócegas. Você não vai entrar mais uma vez nesse compasso, nesse papel insuportável que costuma adotar em todas as suas relações.

Mas, para isso, é preciso que você ocupe seu espaço. Tire a venda, não deixe para os outros decidirem até onde eles vão com você. Defina isso antes, escolha o remédio que te faz bem. Ensaie a dança que você quer dançar, e não aquela que você detesta. O outro só começa onde você termina.

*Esse é o simmilimum, princípio que eu aprendi com meu médico Paulo Rosembaun no livro Homeopatia – Medicina sob medida.

Imagem: 8 de espadas do Tarot de Waite.

O mito das relações que terminam bem

Todo encerramento é um baque. Quer dizer: ninguém começa uma relação esperando que um dia ela vá terminar. Ninguém planta uma rosa projetando o dia em que ela irá murchar.

Agora, me surpreendem as narrativas da aceitação, as narrativas da celebração do que foi e a resiliência sobre não ser mais.

Ora, nenhum empreendimento termina sem frustração. O término pode ser um alívio; a despedida pode por fim ao sofrimento; mas o olhar sobre o passado consegue ser tão desprendido assim?

Conseguiremos lembrar de nossos mortos sem saudade? Falar de nossos ex sem resquícios de ressentimentos?

Quando o distanciamento será legítimo para um discurso totalmente desinteressado? Uma interpretação madura dos fatos, que reconhece suas benesses e superou suas perdas?

Nada garante que as pétalas que murcharam no meu coração apodrecem da mesma cor que as suas. Regar uma rosa seca na gaveta não a traz de volta ao jardim.

Quando ainda há tempo, para reavivar uma flor se deve tratar todas as pragas que a enfraquecem, adubar a terra, dar-lhe a atenção que faltou.

Agora, transformá-la em um belíssimo arranjo post mortem é um ato vaidade, e não de amor.

A perfeição é uma farsa

Amal Alamuddin é uma advogada poderosa. Fala três idiomas, é conselheira do ex-secretário-geral da ONU e estava acompanhando o marido, uma das maiores estrelas de Hollywood. Em Cannes, encantadoramente vestida, NÃO CONSEGUIU SUBIR A P____ DE UMA ESCADA.

Amal Alamuddin é uma advogada poderosa. Fala três idiomas, é conselheira do ex-secretário-geral da ONU e estava acompanhando o marido, uma das maiores estrelas de Hollywood, em Cannes. Encantadoramente vestida, não conseguiu subir uma escada sozinha.

Ser perfeita nunca foi uma ideia que me agradou muito. Talvez porque eu nunca tenha sido muito “boa” nisso, ou provavelmente porque a contraparte obrigatória dessa ideia é um fracasso escandaloso. Mesmo quando você acerta.
Explico: nós mulheres somos confrontadas com ideais etéreos, e a nós são atribuídas tarefas hercúleas de auto-transmutação constante.
É como se a perfeição estivesse sempre a um passo mais, um investimento maior, uma dedicação um pouco mais disciplinada. Porque simplesmente “ser” não é permitido.
E então vamos nós, seguindo planos mirabolantes de dietas, cronogramas de estética rigorosos e regras precisas de comportamento nos relacionamentos. Fazendo jogos, planejando movimentos e posturas. Para não sermos arrogantes, para não sermos mal interpretadas, para podermos sair ao sol no verão. E mesmo assim, falhamos.
Porque sempre tem um doce que nos chama, ou porque o salto quebra. Porque fica batom no dente. Porque o alisamento não se mantém na umidade. O salto agulha não dá firmeza na passada. A roupa é tão justa que pode rasgar a qualquer momento. Porque sua calcinha não pode jamais aparecer, e pior ainda se ela for do tamanho errado. E os seus peitos, eles sempre serão do tamanho errado.
Essa expectativa difusa nos acompanha das entrevistas de emprego à nossa cama. Subimos em saltos de tortura, maquiamos a identidade na nossa pele, forjamos comportamentos que não expressam nossas emoções. Buscamos encontrar o espaço muito tênue entre a submissa e a louca, a mal-comida e a biscate, a monstra fitness e a largada. Será que existe mesmo esse lugar de ~normalidade~ em que seríamos deixadas em paz?
Não, esse lugar não existe. Porque vivemos em um sistema que alimenta nossas inseguranças. Adquirimos soluções para problemas inventados, e eles estarão sempre a mais uma compra de distância. O emprego dos sonhos está um curso mais perto. O corpo ideal é questão de  uma cirurgia mais. A nossa paz interior, em uma pílula cada manhã.
Por outro lado, vivemos relações que, muitas vezes, pressupõem essa insegurança. Seu chefe vai aceitar você ser mais competente do que ele? Tudo bem para seu marido dividir as tarefas, ou pior, receber menos que você?
Lembremo-nos que o defeito não somos nós. O defeito é construído. Qual performance poderia ser tão bem executada a ponto de perfeita? Nenhuma. Qual truque temos que fazer para que o mundo nos deixe, simplesmente, ser? Aquele de olhar para si mesma e dizer: eu sou a melhor versão de mim mesma. E isso me torna o máximo.
Chega de cumprir, frustradas, papéis toscamente interpretados de perfeição. Chega de ser apenas um rascunho de nós mesmas. Você não é uma farsa, você é carne, osso, pele e espírito. Não deixe ninguém passar por cima disso.

Sangue Bom: livre para menstruar

Pare de odiar sua menstruação e dê o próximo passo da sua liberdade

Continuando o assunto dos últimos posts, vamos ver como podemos viver nossa menstruação com mais tranquilidade.

3. Repense o anticoncepcional

A pílula (e todos os contraceptivos hormonais, como anel, implante e adesivo) suspende seu ciclo de variação hormonal natural e introduz hormônios artificiais em doses estáveis ao longo do mês, melhorando alguns sintomas percebidos no ciclo natural. Mas, se a manutenção de um nível estável de hormônios artificiais acaba com os “vales” do nosso ciclo, também impede os “picos”. Ou seja: ficam inibidos os momentos de “fragilidade”, mas também aqueles de “poder” e autoconfiança promovidos pelas variações naturais do nosso corpo.

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E os benefícios da pílula para os sintomas do período pré-menstrual e menstrual muitas vezes nem são tão vantajosos assim. Se diminui as cólicas, muitas mulheres relatam uma instabilidade emocional maior com a pílula, e até mesmo depressão. Se reduz as espinhas, a baixa na testosterona dificulta o fortalecimento muscular e dá menos vigor físico – a famosa fadiga. Sei que é difícil encara essa possibilidade, mas tomar esse remédio diariamente pode estar, na verdade, prejudicando o seu bem-estar.

(Falando nisso: você já tentou parar com a pílula?)

Talvez optar pela camisinha, o diafragma ou o DIU de cobre como contraceptivo não seja tão ruim assim. E descobrir novas formas de encarar as cólicas, a irritabilidade, as espinhas e outros sintomas do ciclo é uma tarefa desafiadora, mas não impossível. O que nos leva ao próximo ponto.

4. Observe-se, conheça-se, respeite-se

Como já falei antes aqui, a medicina tradicional e a indústria farmacêutica são baseadas numa separação muito clara entre os detentores do conhecimento sobre o corpo e as donas desses corpos – ou seja, nós. Isso faz com que seja difícil nos sentirmos seguras sobre nossos próprios ciclos e nossa saúde, porque sempre tem alguém que sabe mais para interferir nas nossas decisões. E decidir por nós, dentro de um cenário totalmente paternalista da relação médico-paciente. Para reverter isso, não tem jeito: é preciso se informar e se observar, desconstruindo a ideia de que somos “maquininhas com defeito”.

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Para as mulheres que nunca tomaram pílula ou começaram apenas na idade adulta, foi possível aprender a perceber que as flutuações hormonais ao longo do ciclo impactam e muito a nossa percepção do mundo. Para quem começou desde cedo com ela, e não teve oportunidade de se adaptar ao próprio ciclo, pode ser estranho pensar em aproveitar as características de cada fase. Mas pode ter certeza: fazer isso ao invés de repreender seu corpo pode ser extremamente vantajoso.

Por exemplo: nos momentos de maior introspecção, como pode ser o período menstrual, podemos tentar nos preservar de possíveis conflitos, evitando embates e discussões. Por outro lado, muitas mulheres sentem a autoconfiança lá em cima perto da ovulação – e ficam mais seguras de si, cheias de energia para encarar disputas e tarefas mais desafiadoras. Pode parecer papo de horóscopo, e veja só: não estou dizendo que somos limitadas aos nossos hormônios. Mas, assim como os alimentos que comemos, o ambiente em que vivemos e os relacionamentos em que estamos fazem diferença sobre o nosso bem-estar, também acontece com as variações hormonais naturais pelas quais passamos. Caminhar pela manhã quando ainda está fresco é muito mais fácil do que ao meio-dia; consertar o telhado fica mais simples quando não está chovendo.

Observar-se e identificar seu estado físico e emocional é o primeiro passo para avaliar o quanto você vai se permitir envolver/desgastar em cada questão. Cada mulher tem seu próprio padrão de variações, então só você vai poder descobrir como usar cada fase do seu ciclo para maximizar seu bem-estar – e respeitar seu corpo.

5. Junte azamiga

Para facilitar todo esse processo de autoconhecimento – e empoderamento, nada melhor do que boa companhia. Em um mundo onde é proibido menstruar (ou ter orgulho disso), trocar informações, experiências e apoio é realmente transformador.

Quantas vezes não usamos o tabu a nosso favor? Justamente por ser um segredo, é nesse espaço de privacidade que encontramos empatia uma com as outras. Emprestar um absorvente ou uma roupa, indicar um chazinho ou um remédio para cólicas. Lembrar sua amiga num dia difícil que ela só está “de TPM”, menos tolerante com as dificuldades do mundo e isso é completamente normal, pode ajudar a acalmar as coisas. Às vezes, precisamos de um colo, ou um pouco de descanso do mundo. Perceber esse momento e encontrar uma brechinha para si mesma em sua própria vida pode ser uma verdadeira revolução.

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