A beleza inimiga

É impressionante a quantidade de revistas, blogs, programas televisivos e livros que têm como objetivo nos ensinar a ser mulheres melhores. Mais bonitas, mais atléticas, mais profissionais. Como conseguir conciliar os diversos papéis da mulher perfeita, sem descer do salto, sem engordar, sem perder a sensualidade, sem envelhecer.

Os grandes ícones da beleza contemporânea são chamados pela escritora estadunidense Naomi Wolf de professional beauties, em seu livro The Beauty Myth (O Mito da Beleza). Elas são mulheres de sucesso, que conhecemos pela tevê e estão estampadas nas capas das revistas de comportamento. Atrizes, cantoras, apresentadoras, políticas, jornalistas, executivas, chefs de cozinha, artistas plásticas. Todas elas, além de ter uma carreira consolidada (não como modelos) e receber muitos milhares de dinheiros todo mês, também são referência em termos estéticos, e ai delas se não forem. Cada mudança visual é publicada e questionada com afinco, e elogiada e repreendida conforme a opinião dos especialistas.

Elas confidenciam seus regimes, cremes caros e hábitos cuidadosamente planejados para deixá-las assim flawless, magérrimas, malhadas, depiladas, viçosas. São a prova viva da perfeição, é parte de seu show. As indústrias da moda, dos cosméticos e dos procedimentos de beleza (incluindo cirúrgicos) nos fazem crer que, com algum esforço y mucha plata, também podemos ser como elas.

Wolf explica como a imposição de uma excelência estética às mulheres também pesa no mercado de trabalho, medindo nosso valor (há regras explícitas sobre maneiras de vestir e portar-se, segundo idade e cargo) e serve, ao passo, como justificativa das desigualdades. Afinal, uma mulher bonita tem sucesso devido a sua aparência, a estagiária provocou o assédio, a chefe durona é mal amada, e uma mulher “feia” nunca teve perfil para ser âncora de telejornal.

Ainda sim, o discurso do triunfalismo não tarda em querer convencer que a igualdade já chegou.  Segundo a autora, manter umas poucas poderosas em evidência ajuda a disciplinar e, ao mesmo tempo, maquiar a enorme diferença salarial da grande massa feminina, as discriminações por gênero, e o assédio. Alardeia-se a “vitória” das mulheres, a Dilma Roussef, a Graça Foster, e vem a Beyoncé cantar que nós mandamos no mundo.

Para o gênero feminino, é mais que manjada a naturalização da necessidade de consumir e da eterna insatisfação com a aparência. Wolf entra aqui, explicando que cultivar estas sensações nas mulheres é necessário para manter o sistema de submissão.  Nós “não temos o que vestir” porque de fato, nenhuma roupa parece completamente adequada ao ambiente de trabalho: nossos corpos não são bem vindos ali. A sexualização do corpo feminino é amplamente constrangedora, sendo sempre um mecanismo de controle e depreciação das mulheres que trabalham. Para nos julgar, o sexo sempre está em questão no mundo profissional.

O mais interessante do conceito de Wolf é perceber como este padrão funciona para nos vulnerabilizar: seja por estarmos dentro, fora ou em seu limiar, tentando provar nosso valor inclusive profissional. Existe uma contradição intrínseca aos esforços cotidianos por ser mais “belas”. Ao mesmo tempo em que estar dentro do padrão garante elogios e certa sensação de “dever cumprido” – estar com as pernas em dia, ser inesquecível, projeto verão etc -, além de certo poder atrelado a uma sexualidade que fetichiza corpos plásticos, isso nos fragiliza. Porque de salto,  nossas pernas torneadas não conseguem correr. A míni saia e o decote são desculpas para o assédio onde quer que seja, andar nas ruas é ser constantemente lembrada de seu lugar na hierarquia dos gêneros. O corpo feminino, não importa por baixo de quantos panos esteja, é sempre a causa da violência.

Essa incessante disputa entre nós – e dentro de nós- é a dama de ferro que a todas enclausura. O livro está disponível em pdf no link abaixo.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Referências: O Mito da Beleza, Naomi Wolf
Brasil.gov.br: Desigualdade de Gênero – Mulheres x Homens

Anúncios

Um comentário sobre “A beleza inimiga

  1. Ja virei fã do seu blog! Hoje estava em um debate com meus alunos sobre essa questão do padrão de beleza. Impressionante como isso está arraigado na mais tenra idade… Beijo, parabéns e sucesso!

    Curtir

comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s