Salve Jorge, tráfico e prostituição

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Atire a primeira pedra quem nunca acompanhou uma telenovela assim, diariamente. Com seus mundinhos cheios de intrigas, personagens irrefreáveis dispostas a tudo para atingir seus propósitos e classes sociais estereotipadas, as novelas seguem como uma das principais opções de entretenimento da população brasileira. Pois bem, vou confessar: comecei a acompanhar Salve Jorge e assisto sempre que posso.

A atual telenovela de horário nobre da Rede Globo, de autoria de Gloria Perez, tem como linha mestra a história de uma garota carioca traficada para a Turquia. Morena, como muitas outras, viajou aliciada por promessas de trabalho bem pago no exterior. Acabou, entretanto, trancafiada no porão de uma boate e forçada a se prostituir.

Trazer o assunto tráfico internacional de pessoas para a população é atitude de muita responsabilidade: em primeiro lugar, por tratar de um tema ainda tabu na nossa sociedade – a prostituição; e também porque é um dos crimes que as autoridades mais falham em combater. Envolve somas milionárias, sendo o terceiro negócio ilegal mais lucrativo do mundo. Também muita corrupção, no que se trata da vista grossa das fronteiras e da condição dos imigrantes no mundo todo. Ele vulnerabiliza e estigmatiza suas vítimas, restringindo as denúncias; e acontece em grande parte a portas fechadas, em ambientes de “entretenimento” masculino, no caso do tráfico para a prostituição.

De fato, mostrar na novela o ciclo todo que envolve o tráfico – aliciamento, retenção de documentos, aprisionamento e exploração – trouxe resultados positivos. Recentemente foi anunciado o desmonte de dois cativeiros de mulheres a partir de denúncia de uma mãe, que reconheceu num telefonema da filha indícios daquilo que passava na tevê. No total, foram libertadas 40 mulheres traficadas para a Espanha.

Entretanto, como recentemente declarou a Ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres Eleonora Menicucci, “Isso que tem passado na novela é muito pouco. A situação é muito mais grave, alarmante e preocupante”. Por não ter um comprometimento explícito com o enfrentamento ao tráfico, o enredo acaba também trazendo uma abordagem do tema que pode confundir ou mal informar os espectadores.

Em primeiro lugar, vale apontar a ridícula atenção dada ao assunto mais escancarado da novela: a prostituição. Quer dizer, em nenhum momento se fala sobre a relação destas mulheres com os clientes, quem são eles, como agem com relação a elas e ao contexto precário em que as encontram. Não se fala em violência, em prevenção de doenças e gravidez ou na conivência destes homens e das comunidades de entorno com a exploração. O que transparece, de fato, é uma visão fetichizada da prostituição: garotas de aspecto saudável desfilando com lingerie cara para homens de meia idade, endinheirados e até “generosos”.

Por outro lado, a trama traz tantas reviravoltas e falhas de continuidade que por vezes não se sabe o que é baseado em fatos reais e o que é invencionice. Começamos então a desconfiar do todo: será que uma máfia como essa teria mesmo dinheiro para pagar um jatinho particular para levar apenas uma garota até a Turquia? Conseguiriam infiltrar-se tão fortemente nas famílias a ponto de fazer calar as vítimas em suas próprias casas?

Minhas suspeitas apontam para uma resposta positiva, a julgar pela extensão das redes de tráfico pelo globo, os números escondidos por trás de vítimas silenciadas, e o reconhecimento dos governos de que este é um assunto que os fragiliza como um todo. O tráfico de pessoas está nos países ricos e pobres, de toda a religião e cultura. Desta forma, trazê-lo para a televisão é uma atitude positiva, embora ainda falte muito para compensar os efeitos nocivos das novelas enquanto modelos de valores e consumo para a sociedade de massas.

Há um livro muito interessante sobre o tráfico, chamado “Esclavas del Poder” (Escravas do Poder). Escrito pela jornalista mexicana Lydia Cacho, ajuda a levantar algumas questões para entender o crime, em especial o papel da corrupção e da pobreza no aliciamento de pessoas. A autora investigou diversos países, no ocidente e oriente, em busca de dados que iluminassem a questão. Fez um panorama internacional do tráfico, com histórias no Japão, Turquia, Israel, Palestina, Espanha, Inglaterra, Estados Unidos, México, entre outros, reunindo depoimentos de vítimas e colaboradores de todas as idades. Vale a pena conferir.

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Um comentário sobre “Salve Jorge, tráfico e prostituição

  1. Não sou uma pessoa que acompnaha novelas, mas especialmente a novela em questão chamou minha atenção para o tema central “o tráfico de pessoas” e por vezes assisto para acompnhar o desenrolar da trama – meio a distância -, mas que chega a mexer com os nervos.
    Acho bem positivo trazer a tona um assunto tão sério. Só o fato de estar sendo exibido já deixa as pessoas mais alerta.

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