Salve, Jorge, a todas nós!

gloria1-608x330Finalmente acabou a novela impregnante, e podemos ter nossas noites de segunda a sábado de volta! Antes que comece de vez a semana, alguns comentários sobre o terrível folhetim, que trouxe um pouquinho mais de preconceitos, estereótipos e moralismos para as vidas dos milhões de espectadores diários.

Sério mesmo, não sei se alguém conseguia assistir os capítulos sem fazer alguma objeção ao que via. Fossem os improváveis trajes da agente da PF em serviço, ou as atitudes bastante questionáveis da protagonista traficada, muita coisa permaneceu não explicada na novela.

Vou me centrar aqui nos aspectos mais repugnantes da trama, que é bom dizer que também teve seus méritos. De fato, a história se manteve pelo apelo à – digamos – vida real. Seja falar do tráfico de pessoas, do poder inimaginável dos chefões desses mercados ilícitos, da manipulação de crianças na separação dos pais, houve sim o que se pudesse aproveitar. Mas não se pode perdoar o show de horror dramatizado cotidianamente no horário das nove. Gloria Perez destilou machismo em sua obra, repetindo os papéis mais batidos da moralidade hipócrita e machista que já devíamos ter superado.

ziah-ayla-bianca-salve-jorgeNão posso deixar de falar de Ayla, mulher do interior da Turquia cujos esforços focavam totalmente o grande e atemporal objetivo do ~sexo frágil~: agradar seu homem. Ela perdoou um primeiro abandono e, depois de reatar e casar-se com o guia turístico, suportou de modo complacente a mentira diária de seu par. Enquanto a matriarca da família a encorajava a competir com a rival, ao invés de questionar seu marido, todas as pessoas próximas pareciam observar atentamente o desenrolar da estória, não chegando a atrapalhar o deleite do macho-alfa Zyah. No final, quem desistiu da competição foi a outra, e a relação completamente assimétrica de poder e confiança naquele relacionamento permaneceu intocada. Em um acesso de ciúme de seu senhor, Ayla teve o marido de volta só para ela. Isso enquanto – supomos – não apareça outra mulher irresistível para ~atiçar seus sentidos de homem~ e ~roubá-lo~ novamente. Nenhuma menção à responsabilidade do cara por enganar abertamente sua ~amada~ esposa. Moral da estória: homens não têm senso de compromisso, mulheres se digladiam por um pouco de atenção.

dezluite-pescoco-vanubiaNessa chave também entrou Delzuíte, trabalhadora incansável que sustenta o companheiro eternamente desempregado, independentemente das infindáveis manifestações de desrespeito e enganação. Além do marido dentro de casa que toda mulher não mede esforços para ter, aqui a autora foi ainda mais cruel. Reivindicou certa vitimização atribuída ao homem negro e pobre, e por que não, ex-presidiário. Pronto! Temos o clássico racismo travestido de meritocracia, a figura do malandro que parece estar na cor-da-pele e determinada pela geografia urbana. “Pêh-coço” é a caricatura mais graciosa para a classe média branca e conservadora, que só precisava de mais um personagem engraçadinho para demonstrar o que pensa verdadeiramente sobre os ~favelados~.

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Por fim, mas não menos repugnante, a vilã mais fake da história de Claudia Raia: Lívia Marine. Cruel chefona da máfia, milionária poderosa da moda e das revistas, assassina fria das seringas: o que, afinal, poderia pará-la? “Aah! Já sei”, pensou Gloria Perez, sem usar um tiquinho de criatividade mais. Um HOMEM! Afinal, a barreira intransponível para qualquer mulher será sempre sua sexualidade. Anos de carreira, experiências várias, total sucesso enganando figurões e polícias mundo afora, serão colocados em jogo pelo quê? Uma paixão inabalável, ou, melhor dizendo: o recalque de uma mulher abandonada. Bela moral, essa nossa. Como se não bastasse a palhaçada sexista que levou a poderosa Lívia Marine para os braços vingativos do capitão Theo, e depois para a sarjeta do descarte, qual seria o destino merecido de Lívia? Antes disso: o que afinal explicaria uma mulher refinada agir com tal mau-caratismo? “Há! Fina nada. Ex-stripper pobre, barata, e cafona!”, bradou Perez, jogando a atriz seminua dentro de uma taça gigante de cabaré, como se não houvesse nada mais humilhante para uma pretensiosa dama da alta sociedade, que por sinal já havia tomado parte em escândalos midiáticos e surras públicas.

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Terrível, terrível. Não estou habituada a acompanhar novelas das oito (ou nove), mas realmente fui pega de surpresa pelo desenrolar do enredo de Salve Jorge. Falar do tráfico serviu de aviso a mulheres ambiciosas Brasil afora… E tudo o mais que se falou sobre qual é nosso lugar na vida, para que serviu?

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Um comentário sobre “Salve, Jorge, a todas nós!

  1. Re, concordo plenamente com todos os comentários a respeito desta novela que eu particularmente não acompanhei na telinha, somente me divertindo com o blog “morri de sunga branca”, que satirizava fatos tais como a Morena estar mais preocupada com o “amor da sua vida” do que com seu próprio filho após todas as voltas ao Brasil. Mas não é neste mérito que quero entrar, o que me chamou a atenção foi um comentário compartilhado por um de meus amigos no facebook, sobre o caso Aisha (aquela que foi roubada da mãe biológica, Deusuíte, e adotada ilegalmente pelos ricaços da Turquia). Resumindo, de acordo com o que foi postado, quando a Aisha, no desenrolar da trama, descobriu que a mãe biológica era a bandidona Wanda, ficou super feliz, foi na prisão, pagou a fiança, deu presentes caros para a sujeita – mesmo sabendo do caráter duvidável da pessoa em questão. Não sei como, após esse episódio ela acabou descobrindo que sua mãe verdadeira era a pobretona, trabalhadora, gente honesta da favela, guerreira que criou duas filhas sozinha, e qual foi sua reação? Ficou revoltada, não quis saber da mãe, sumiu da festinha, enfim.. A nossa rede globo de todo dia, mais uma vez vendendo seus valores invertidos. Grande beijo linda e parabéns pelo Blog.

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