Body literacy: quem conhece o corpo da mulher?

Com tantas consultas, exames e intervenções ginecológicas, o corpo continua sendo um mistério para nós mesmas. E a Medicina tem tudo a ver com isso.

Desde muito cedo, somos convocadas a ver um ginecologista para cuidar de nossas lady parts. O pacote de procedimentos de rotina é extenso, gerando responsabilidades e custos. A impressão é que estamos “sob controle”. Entretanto, a qualquer atraso menstrual, inchaço estranho ou corrimento desconhecido, bate o desespero. Será que todo o tempo e disposição que dedicamos aos consultórios ginecológicos realmente nos fazem sentir mais seguras sobre nossa saúde? Minha aposta: não.

Explico: você sabia que ovula apenas um dia por ciclo, e portanto, são apenas cerca de três dias em que pode  realmente engravidar?

Que as variações hormonais ao longo do ciclo podem te deixar mais aberta a novas experiências, mais criativa, ou mais introspectiva?

Ou que, quando toma anticoncepcional, você não tem período fértil?

Ou que o clitóris é muito mais que um pontinho, com ramificações em volta da vagina e na direção das coxas?

Pois é, amigas.

Com tantas consultas, exames e medicamentos, a gente ainda não conhece o nosso corpo

E permanece a sensação de que precisamos manter esse monstrinho bem controlado. E dá-lhe pílula, exame de toque, papanicolau, mamografia. Qualquer mal-estar, “é gravidez!”; desconforto com os médicos, “é frescura!”; não querer a pílula, “é loucura!”; e, vai ficar nervosa? “É TPM!”.

A ideia de descontrole do corpo feminino – e o consenso social sobre isso – tem origem milenar

Desde os primórdios da medicina ocidental, na Grécia Antiga, Hipócrates teorizou sobre o “útero errante*” – órgão que ficaria perambulando pelo corpo feminino e geraria intensos distúrbios.

Isso deu origem ao conceito de Histeria, uma doença de mulheres incontrolavelmente descontentes – que tinha como sintomas o desejo sexual intenso, ou a ausência dele, o “nervosismo”, “uma tendência a causar problemas”, entre vários outros. Especialmente durante o século XIX, em que as bases da Medicina moderna se consolidaram, esse era o grande diagnóstico das mulheres. Como tratamento, desde a hipnose, às curiosas massagens genitais (sério), até a histerectomia (remoção cirúrgica do útero).

“A mulher é mulher em virtude da falta de certas qualidades” – Aristóteles

Com o avançar dos anos, a Histeria deixou de ser considerada doença, mas permanaceu o approach médico digamos, histérico, ao corpo da mulher. Em seu livro Inventando o Sexo, o historiador e sexólogo Thomas Laqueur faz um recorrido pela evolução da Medicina e sua compreensão dos dois sexos, mostrando como o corpo masculino foi tomado como a regra, enquanto o feminino foi analisado em comparação – o famoso segundo sexo. Ou seja, com o corpo masculino como modelo principal, as especificidades do corpo feminino tornam-se excessos, ausências – e assim elas são compreendidas e descritas.

Emily Martin aponta, em suas pesquisas, a negatividade na descrição científica dos processos biológicos femininos. Palavras como perda, queda, falha, instabilidade e ausência são extensamente utilizadas nos livros didáticos, nos manuais médicos. O corpo da mulher é tido como inerentemente falho.

Por exemplo: a fixação pela gravidez. Temos a ideia de que todo mês o corpo se prepara para gerar um filho.  Por que tomamos essa perspectiva se, na verdade, na imensa maioria do tempo de vida de uma mulher, ela passa por todas as fases de seu ciclo sem engravidar? Ou seja, se o que absolutamente todas as mulheres saudáveis compartilham é a menstruação e as variações do ciclo, por que permanecemos enfocando a gravidez como evento principal? E compreendendo a menstruação como desperdício, falha? Nem toda mulher é mãe. Mas toda mulher saudável naturalmente menstrua.

Toda essa história cultural nos levou a compreender o corpo da mulher como inerentemente deficiente

A “ausência” mensal da gravidez (menstruação), o “distúrbio” das variações hormonais (TPM), a “falência” dos hormônios reprodutivos (menopausa), etc. Tudo isso nos leva de volta aos consultórios médicos.

Exame de toque, mamário e papanicolau; pilula anticoncepcional para todos os males – “regular” o ciclo, “controlar” a TPM, os ovários policísticos, a acne, e finalmente, a fertilidade. São incontáveis as intervenções médicas em nosso corpo.

Enquanto a OMS indica, por exemplo, o invasivo e por vezes doloroso papanicolau apenas a partir dos 25 anos, a maior parte dos médicos o realiza como rotina. E a grande gama de efeitos colaterais da pílula não é discutida na prescrição desse método contraceptivo às pacientes. O parto normal, então, é evitado fortemente, ou realizado com intervenções desnecessárias e violentas. E a terrível mamografia vem sendo muito questionada, pela possibilidade de fazer mais mal do que bem às mulheres.

Mas, nos consultórios, nada disso parece assunto nosso

Só quem já foi a médicos diferentes com os mesmos resultados de exames sabe o quanto as decisões e percepções deles interferem no prognóstico – deixando nossas vozes e vontades, muitas vezes, silenciadas. Obviamente, a Medicina é uma ciência em progresso; não quero com esses apontamentos parecer ingrata pelos cuidados médicos. O que preocupa é o distanciamento de nós mesmas com relação à nossa saúde – recorrentemente, parece que não temos escolha. Para evitar isso é que precisamos de mais leituras, mais debates, mais autoconhecimento. E de médicos mais preparados.

Nosso corpo não está em descontrole, ele tem um equilíbrio que precisamos conhecer

Aprendendo nossos ciclos, sabemos identificar melhor as alterações nele. Podemos saber quando realmente corremos o risco da gravidez. Podemos escolher o método contraceptivo mais adequado a nossas necessidades. Podemos entender melhor como a pílula e a cesariana nos afetam. Conhecendo os remédios e procedimentos, podemos decidir mais conscientemente sobre os tratamentos, interagir de maneira mais saudável com os profissionais de saúde, e viver melhor com nosso corpo.

Para saber mais:

Laura Wershler, Body Literacy

Fique Amiga Dela, Histórias do Corpo: Ciclos e Ritmos

Holly Grigg-Spall, Sweetening the Pill.

Clitóris: O Prazer Proibido (VÍDEO)

Emily Martin, A Mulher no Corpo.

Thomas Laqueur, Making Sex.

Histeria (FILME)

Fox News, Mammograms do not reduce breast cancer deaths, study finds

Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo.

*Tradução livre para wandering womb.

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2 comentários sobre “Body literacy: quem conhece o corpo da mulher?

  1. Muito instigante seu trabalho de condensar tantas informações em prol de algo tão necessário quanto o autoconhecimento. O texto percorre em pinceladas que ativam demais a curiosidade de se aprofundar em todos os temas. Torço para que continue a série com pormenores. Está lindo o seu blog. É você.

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