O corte

Incerto como teria de ser, duro como uma rajada de vento frio, daquelas que levantam sua roupa e quase te derrubam no chão.

Ele vem quando menos se espera. Seco, implacável. Não tem essa de transição lenta, de algo que você vai farejando – aquela famosa crise no relacionamento. Não: corte é corte. Quase como descobrir uma traição: você só toma conhecimento, atônito. E geralmente é o último a saber.

O corte é quando sua história é interrompida abruptamente. Às vezes seguido de uma escalada de tensão, mas na maior parte só atravessando seu enredo sem pedir licença. É aquele plot twist que joga para o alto as suas certezas, que balança sua cabeça e te tira, por alguns segundos, a firmeza sob os pés.

É quando bate a sensação de que você não é mais protagonista – porque não tem nada que você poderia ter feito para evitá-lo. Esse grande escritor sacana resolveu riscar do set o seu nome, entre tantos outros, então não dá nem pra pensar em você como vítima exclusiva de um grande vilão. Não é pessoal. Você estava na hora errada no cenário certo, sua história não fechou nas contas, e as suas palavras foram reduzidas a um número.

Incerto como teria de ser, duro como uma rajada de vento frio, daquelas que levantam sua roupa e quase te derrubam no chão. Mas não se engane, meu amigo: essa é a função dele. O corte é o ponto alto dos melhores roteiros, e o melhor agora está por vir.

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