Transformar o olhar

Fulana está horrível, engordou. Não saio de casa sem um batonzinho. Esse tipo de roupa só pode usar quem está magra. Ela é muito feia pra ele. Não transo sem ter feito depilação. Não uso biquíni. Que horror mulher com sovaco peludo. Mulher de bigode não dá! Ela é muito relaxada. Ela é bonita só de rosto.

Você sabe o que é body-shaming?

Numa tradução livre, body-shaming significa o ato de envergonhar-se do corpo, ou ainda, reprová-lo.

Body-shaming é sentir vergonha da gordura, dos pelos, da pele. É sempre reparar que uma mulher é “””feia”””. É se olhar no espelho e ver um amontoado de tarefas não cumpridas, não encontrar roupa que caia bem e se sentir um fracasso.

Body-shaming também é esperar a aprovação das pessoas quanto às suas formas. É sentir um alívio ao sair da academia ou do salão. É ver o corpo como um objeto a ser corrigido: tirar, acrescentar, enrijecer, esticar, até atingir alguma perfeição.

Body-loving

Body-loving, pelo contrário, é amar seu corpo. É entendê-lo, como costuma dizer a blogueira Nádia Lapa, como uma fonte inesgotável de prazer.

É amar suas formas, conhecer cada pedacinho de si. Cuidar-se, agradar-se, como quem preza o que tem de mais precioso: a si mesma.

Para falar de body-loving, minha ideia era mostrar fotos de mulheres nos desfiles de Carnaval. Não aquelas musas, os “destaques”, mas aquelas de toda forma, toda cor, todo gênero e toda idade. As mulheres com os pés na avenida, dançando seu samba-enredo com um sorriso no rosto. É lindo de ver.

Mas não encontrei absolutamente NADA na cobertura da grande imprensa, nenhuma foto que servisse para exemplificar como somos concretamente. Só estavam amplamente noticiadas as beldades profissionais.

Essa desconexão entre o que se publica e o que somos é, em boa parte, causa da angústia chamada body-shaming. Estamos sempre nos autodepreciando, ao comparar-nos com imagens irreais.

Para parar de reprovar o corpo, precisamos contemplar-nos umas às outras, perceber a diversidade que nos compõe. Devemos buscar maneiras de transformar nossos olhares. Fechar as revistas e parar de acreditar que o impossível é o desejável, que o sofrimento faz parte do processo de se tornar uma mulher. Essa ideia é absurda, mas permeia os discursos mais cotidianos sobre nós mesmas – como se não fôssemos “completas” ou suficientemente “femininas” sem corresponder a um padrão.

A interpretação do corpo como uma realidade vergonhosa é incentivada a cada instante, sabemos bem: infinitos programas televisivos de beleza e dieta, revistas com instruções para se transformar completamente, publicidade photoshopada de todo tipo nos dizendo o que é uma mulher desejável.

Nesse cenário, o que precisamos é dizer basta: aprender o mundo com os olhos da descoberta, e não com aqueles da cobrança e do julgamento.

Simples assim, eu me permiti ser livre

Simples assim, eu me permiti ser livre

Para transformar a mídia, ainda vai muita luta política, assim como nos outros espaços em que sofremos violência. Mas o que podemos iniciar já é a radicalização da nossa postura contra a criminalização dos nossos corpos da forma como são.

Então, precisamos imediatamente começar  a nos olhar melhor. Nas rodas de conversa, é necessário combater a caçada da beleza impossível, e também o julgamento da feminilidade alheia pela aparência. Vamos falar sobre sexo, mas daquilo que nos agrada e diverte, e não do que devemos esconder ou evitar. Podemos nos pintar, nos vestir colorido, curto, comprido, como quisermos: porque o nosso corpo é nossa conexão com o mundo, é o meio pelo qual sentimos prazer e expressamos vontades. Basta de patrulha! É hora de começar a se amar.

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