5 dicas para não achar que está grávida todo mês

Miga, PARE COM A NOIA.

O medo da gravidez assombra as mulheres mais que o derretimento das calotas polares. Isso porque não é fácil ser mãe na nossa sociedade – muito menos de surpresa -, mas também porque a gente permanece levando a nossa vida sexual com menos responsabilidade e consciência do que poderia. Então, todo mês bate aquela culpa e você fica desesperada quando está chegando a hora de menstruar. Aqui vão as minhas dicas para dar um basta nessa noia mensal e viver seu ciclo com mais tranquilidade.

 

  1. Não corra riscos. Conheça seu método contraceptivo – e use direito SEMPRE.

Existe uma diversidade enorme de métodos contraceptivos, com taxas altíssimas de eficácia. Mas, para ser eficaz, você tem que fazer parte do grupo que faz o uso perfeito do método. Ou seja: no caso da pílula, tome todos os dias no mesmo horário e fique atenta a outros medicamentos que podem interferir na sua eficácia. Se você usa camisinha, coloque desde o início do contato sexual, e tire imediatamente depois da ejaculação. Para evitar neuras, teste depois a camisinha, apertando e até enchendo de água para ver que ela segurou tudinho lá dentro. Pesquise, conheça e confie no seu método. Ah, e usar mais de um ao mesmo tempo multiplica a eficácia deles, garantindo um soninho sem de bebê para você.

 

  1. Aprenda a observar o seu ciclo, ouça o seu corpo – e RELAXE!

Os sinais iniciais da gravidez são muito parecidos com os da TPM, então, não ache que seus peitos estão inchados de leite, que você está com enjoo, etc etc. Se você não toma pílula, pode observar pelo método sintotermal qual é a fase do ciclo em que você está e triplicar os cuidados quando estiver fértil. Para ter uma ideia, a cada ciclo você só pode efetivamente ficar grávida se transar em apenas alguns dias específicos, com no máximo 30% de chances de engravidar se transar sem contracepção quando está fértil. Então miga, PARE: não é tão fácil assim ficar grávida, e se você conhece seu ciclo, sabe dizer se realmente tem motivo para se preocupar.

 

  1. Não desespere e NÃO CONSULTE O DR. GOOGLE.

Você já está informada sobre os princípios básicos da concepção – e da contracepção. Por isso, agora que você provavelmente está na TPM (e muito mais sensível e com tendências a dramatizar a vida*), não vá ao Dr. Google. Porque certamente ele vai te dizer que é gravidez – ou câncer – o que não ajuda em nada em amenizar o desespero. Especialmente, não deixe para descobrir o sangramento de nidação neste momento.

 

  1. ESQUEÇA o sangramento de nidação.

A nidação é o processo em que o embrião se acopla ao endométrio para poder se desenvolver. Isso acontece uns 12 dias depois da fecundação, por isso, muitas mulheres que estão grávidas observam um pequeno sangramento mais ou menos na época de menstruar, mas não é menstruação.

Agora que você sabe disso, ESQUEÇA. Se você usou seu(s) método(s) contraceptivo(s) direitinho, não se arriscou no período fértil, e apareceu um sanguinho mequetrefe que ainda não é fluxo menstrual, RELAXA. Muitas mulheres (incluindo eu) recebem um teaser de menstruação alguns dias antes do fluxo, ele para, e só depois ela chega de vez. Considere isso um sinal que a menstruação está chegando, e fique longe da paranoia.

 

  1. Converse com seu parceiro ou uma amiga.

Pessoas de confiança podem ajudar você a pensar com calma e avaliar se, de fato, existe um risco de gravidez. Escolha alguém que você considera sensato e divida a angústia. Talvez você – mais uma vez – esteja dando voz àquela insegurança de sempre, e isso acaba propiciando os atrasos menstruais. Se, mesmo depois de avaliar calmamente os riscos, achar que pode estar grávida, faça um teste de farmácia e até um de sangue. Para que perder o sono? Tá na dúvida, descobre logo e segue a vida.

 

 

Em último caso, você tem escolha.

Por fim, precisamos falar sobre o aborto. Essa prática é considerada crime no Brasil, mas não é a proibição que vai fazer as mulheres pararem de ter autonomia sobre suas vidas. Se você engravidou e realmente não quer ser mãe agora, informe-se, procure opções e aconselhamento o mais seguro possível. Pessoas de confiança da área da saúde e da luta por direitos reprodutivos podem te orientar, como o Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, em São Paulo. Já as organizações Women on Waves e Women Help Women orientam e enviam medicamentos abortivos para mulheres em países onde o aborto é proibido. Muito importante: para evitar criar provas contra você, não fale sobre isso pela internet (do seu computador/logada nas suas contas) ou telefone. E mais importante de tudo: não esteja sozinha, não tome decisões precipitadas e não se culpe. Mais de 2 mil mulheres abortam todos os dias no Brasil, e esse é um assunto de saúde pública que o nosso país se recusa a tratar com seriedade.

 

*Cada mulher vive seu ciclo de um jeito, e estou falando a partir da minha experiência e conhecimento pessoal. Se você não vive a TPM assim, peço desculpas pela generalização, ok?

 

Leia mais:

Cartilha Fique Amiga Dela

O que as mulheres devem saber sobre Fertilidade

Nidação ou menstruação: saiba quais são as diferenças

Como funciona o aborto no Brasil e no mundo

‘Aborto já é livre no Brasil. Proibir é punir quem não tem dinheiro’, diz Drauzio Varella

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Você já tentou parar com a pílula? – parte 1

Pode parecer surreal, mas estamos viciadas numa droga: a pílula anticoncepcional

Os médicos torcem o nariz, as amigas entram em choque e os familiares – esses nem podem ficar sabendo. A decisão de abandonar a pílula é considerada uma ideia absurda, um desleixo, mesmo quando motivada por efeitos colaterais incômodos, riscos à saúde e a procura de um método contraceptivo menos invasivo. A postura dos parceiros também costuma ser um entrave – com a recusa da camisinha ou de métodos que exigem sua participação. Além da pressão social, ainda aparecem os efeitos da abstinência – que são muito pouco difundidos – e, no fim das contas, muitas mulheres desistem. Mas se você for conversar com aquela sua tia ou amiga mais natureba, vai descobrir que ela nunca tomou nem quis tomar esse medicamento. E não saiu tendo filho a torto e a direito, nem arriscando a saúde sem saber. Por que, afinal, estamos viciadas na pílula?

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É, de fato, um fenômeno geracional. Enquanto a mulher da chamada “geração pílula” conheceu esse método apenas no início de sua vida conjugal, hoje a pílula já é prescrita de maneira preventiva, desde a primeira consulta ao ginecologista. Enquanto as escolarizadas dispõem de mais opções, quase 80% das mulheres de menor nível educacional já começam tomando pílula. Ela corresponde ao principal método contraceptivo temporário utilizado atualmente no Brasil, com um índice de 38% de uso entre as mulheres que se previnem – mais do que todos os outros métodos temporários somados (32%). Para ter uma ideia, só 18% das brasileiras usam camisinha!

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A indústria farmacêutica é a principal interessada nesse quase-monopólio. A pílula é o produto farmacêutico perfeito: um remédio feito para ser tomado diariamente, sem a necessidade de doença, durante boa parte da vida de uma parcela enorme da população. No Brasil, o número é de quase 27 milhões de potenciais consumidoras – um mercado impressionante. Para ver como a indústria está confortável com a sua situação: a fórmula básica da pílula nunca mudou – ela foi introduzida nos anos 60. Mesmo as demais tecnologias de contracepção hormonal (implante, adesivo) foram desenvolvidas lá nos anos 1960 e 1970. Há mais de meio século, o consumo desse medicamento “como água” garante o lucro da indústria.

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Mas será que a pílula é mesmo tão superior aos outros métodos?

A infabilidade da pílula, na verdade, é uma ilusão: todo método contraceptivo tem um índice de falha. E o da pílula não é nem o menor: seu índice de segurança (91%) é intermediário entre o diafragma (88%) e o DIU (99%). Além disso, o mais usual e recomendado é a combinação de 2 ou mais métodos para multiplicar a eficácia contraceptiva, assim como a sensação de proteção. Afinal, se a gente confiasse tanto assim na pílula anticoncepcional, não tomaria pílula do dia seguinte nem faria teste de gravidez com tanta frequência. Segundo um estudo da USP, a maior parte dos jovens recorre à contracepção de emergência por insegurança. Que método ideal é esse, que nos deixa tão inseguras?

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Veja uma tabela com uma conta simples de probabilidade, com a pílula e alguns métodos contraceptivos não hormonais. Os valores variam pouco entre alguns métodos isolados e combinações. Somente o DIU, que depende de um procedimento cirúrgico para implantar, tem sozinho taxa de eficácia de 99%.

 

tabela

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Atenção 1: Fertilidade consciente não é tabelinha, é um conjunto de métodos também conhecidos como sintotérmicos, baseados na identificação da fertilidade por sintomas como temperatura basal, muco e textura da cérvice (Fertility Awareness Methods – FAM).
Atenção 2: Coito interrompido é um método considerado inseguro especialmente se utilizado sozinho – mas não falar dele é ignorar a realidade.
Atenção 3: Só a camisinha protege contra as DST. Escolher não usar camisinha é um comportamento de risco.

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Por outro lado, o uso da pílula já como prevenção da gravidez acaba por estimular o abandono do preservativo entre os jovens. Isso porque enxergamos a proteção em dois níveis: primeiro contra gravidez, depois contra DST. Assim, uma vez que a mulher toma o anticoncepcional e a relação é considerada “de confiança”, assume-se que a camisinha pode ser abandonada – e sem ela entram todos os riscos do sexo inseguro.

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Outra diferença da pílula para alguns desses métodos não hormonais – como os 2 tipos de camisinha, o coito interrompido e a fertilidade consciente – é que eles exigem a participação do parceiro na contracepção. Isso incide diretamente sobre o modo com que vivemos nossas relações. É muito comum a recusa do homem em usar camisinha, pelas mais variadas desculpas, mas que colocam em risco a saúde especialmente da mulher. Alegando não sentir prazer, acusando a parceira de não confiar nele, ou dizendo simplesmente que “não serve”, muitos homens rejeitam as várias opções de preservativo e colocam toda a responsabilidade – e o risco – na mulher. Isso sem falar de todos os efeitos colaterais da contracepção hormonal, que tratarei mais para frente.

 

Mas, se a pílula não é o melhor contraceptivo, porque esse consumo obsessivo?

Essa pergunta eu deixo para responder na segunda parte desse post, já que esta ficou enorme. Por enquanto, ficam algumas indicações de leitura.

Continue lendo.

Referências

1 A experiência com contraceptivos no Brasil: uma questão de geração. UFSC, 2012 2 Pesquisa Nacional de Saúde da Criança e da Mulher. Ministério da Saúde, 2006How the Pill Became a Lifestyle Drug. American Journal of Public Health, 2015 4 Bedsider 5 Estudo aponta que uso da pílula do dia seguinte é alto entre jovens. D24am, 2013 6 Uso de contracepção de emergência e camisinha entre adolescentes e jovens. Revista SOGIA-BR, 2005 7 Sweetening The Pill, 2013 8 The Pill: Are you sure it’s for you?