Absolveram o estuprador da USP e isso também é problema seu.

Daniel Tarciso da Silva Cardoso foi acusado de dopar e estuprar pelo menos seis mulheres na maior faculdade da América Latina. Ele também já matou um homem com oito tiros. Mas antes que você diga que ele é um louco descontrolado, aqui vão alguns argumentos pra te mostrar que o estupro, na verdade, ronda a vida das mulheres em tantos níveis e momentos que este está longe de ser um caso isolado, na verdade, ele é um retrato de como a nossa sociedade incentiva e acoberta o estupro. E isso inclui você também. Vem na minha:

  1. O estupro como fetiche

A cultura do estupro está plenamente estabelecida. Nos filmes, nas séries, nas propagandas e em nossos círculos sociais. Basta olhar os filmes pornôs, basta olhar a atitude dos criadores de conteúdo que envolve estupro.

Nós fetichizamos o estupro. Valorizamos a atitude do macho alfa de pensar no seu pinto como uma arma. Nas novelas, nas expressões que usamos:

“Seu arrombado.” “Vai se foder.” “Isso é falta de pica.” “Bota o pau na mesa.”

Olhe a linguagem que a gente usa no sexo. Você já leu contos eróticos na internet? Leia. Observe. Consentimento não é a palavra de ordem: o gostoso mesmo parece ser violar, dominar, conseguir fazer o que a outra pessoa não autorizou.

O sucesso 50 Tons de Cinza romantiza uma relação abusiva - que não tem nada a ver com BDSM – em que o consentimento passa longe.

O sucesso 50 Tons de Cinza romantiza uma relação abusiva – que não tem nada a ver com BDSM – em que o consentimento passa longe.

Bernardo Bertolucci combinou com Marlon Brando que a cena de estupro de Último Tango em Paris seria uma “surpresa” para arrancar a reação “como menina, e não como atriz” de Maria Schneider

 

  1. O estupro da nossa voz

Em 2013, somente 7,5% das vítimas de violência sexual registraram o crime na delegacia.[1]

Quando uma mulher denuncia um estupro, ninguém leva a sério. As primeiras perguntas são sempre: por que você estava lá? Você bebeu? Você aceitou sair com ele? Que roupa estava usando? E tantas outras.

Vemos tantos e tantos casos em que se tenta justificar o estupro, e mais além: questionar se de fato houve estupro. Porque a voz da mulher, na terrível tarefa de anunciar para o mundo que você foi violada, parece não ter valor nenhum.

“O fato de a estudante ter entrado no quarto de Cardoso “de livre e espontânea vontade” e ter dito a duas amigas, que estavam do lado de fora, “que ali permaneceria”, estariam entre os motivos para julgar improcedente a ação” do aluno da USP

Leia os comentários nas notícias sobre estupro. Ouça o que as pessoas falam quando alguém comenta um caso. Preste atenção na reação das autoridades em casos de estupro. Tente, nem que seja por um minuto, imaginar como seria se tivesse acontecido com você.

 

Maria Schneider já tinha acusado o diretor do filme muitos anos antes, mas o caso só ganhou repercussão quando Bertolucci admitiu o estupro.

Maria Schneider já tinha acusado o diretor do filme muitos anos antes, mas o caso só ganhou repercussão quando Bertolucci resolveu falar sobre isso.

 

  1. O estupro da insegurança

90% das mulheres têm medo de ser estupradas. Esse medo existe em apenas 42% dos homens.[2]

O teste mais simples pra ver como é diferente ser mulher e ter medo de ser estuprada 100% do tempo é o teste da calçada. Imagine a cena:

Você está sozinha(o) numa rua erma. De repente, ouve passos. Olha pra trás e “Ufa!”, é uma mulher.

Se você for homem, talvez seu “ufa” seja porque uma mulher jamais seria uma ameaça para você. Mas se você é mulher, definitivamente seu “ufa” vem simplesmente pelo fato de não ser um homem que poderia te assediar ou estuprar.

Viver como mulher te leva a pensar 4039 vezes mais que os homens antes de fazer coisas simples como sair para dar uma volta ou receber um eletricista em casa. Mesmo uma conversa a sós com um chefe homem pode ser intimidadora. E quando estamos entre mulheres, magicamente o espaço se torna mais seguro.

 

  1. O estupro das instituições

No RJ, só 6% dos acusados por estupro vão a julgamento[3].

Agora vamos falar sobre o desdobramento dos casos de estupro. Quantos estupradores são responsabilizados e cumprem pena? As universidades acobertam os casos, estudantes e professores estupram e continuam em suas atividades. Médicos, engenheiros, executivos. Quantos policiais estão aí para coibir a abertura de B.O.? Quantos delegados fazem juízo antes das investigações? Quantos juízes julgam mais por se identificar com o acusado que por ouvir a vítima?

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Foi o que disse o delegado mesmo com o depoimento da vítima e confissão dos acusados

Foi o que aconteceu na USP. Com tantos testemunhos – além do da própria vítima –, mesmo com os laudos psicológicos, psiquiátricos e do exame médico, o juiz achou por bem ignorar o que ela estava falando.

 

  1. O estupro do seu brother

“Na violência sexual no âmbito da violência doméstica, apenas 1% dos casos chegam a uma condenação.[4]” – Ana Rita Souza Prata, defensora pública do Estado de São Paulo

Outro ponto fundamental aqui é que os estupros não são feitos só por bandidos na calada da noite. Estupros são feitos por homens em seus variados espaços. Inclusive, como o estupro é uma demonstração de poder – e não de sexualidade -, a maior parte das vezes são cometidos por homens que a gente conhece. 70% dos casos, para ser mais precisa.

70% dos casos de estupro são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima.[5]

A gente precisa parar de achar que estupro é uma coisa que só acontece com as outras. Que é atitude de pessoas problemáticas, que a gente só precisa evitar cruzar com elas. O estupro acontece aqui, acontece agora e quem comete são os homens ao nosso redor.

Não é exagero dizer que todo homem é um estuprador em potencial. Simplesmente porque eles têm tantos incentivos para estuprarem e saírem ilesos, que potencialmente, poderiam fazer isso sem pensar duas vezes. E muitos, de fato, fazem.

Por isso, ser um homem que caminha ao lado do feminismo vai muito além de simplesmente “ser legal” e respeitar o “não” das mulheres: é preciso tomar partido nessa discussão, ajudar a desconstruir a cultura do estupro. Defender mulheres em situações constrangedoras, oferecer ajuda e se opor ao assédio, especialmente nos espaços masculinos em que isso é incentivado. Ouvir e respeitar a voz das mulheres, como você ouve, respeita e toma partido da voz dos seus amigos.

Ah, e não custa lembrar que as travestis que você encontra na noite, as mulheres negras que você objetifica, as crianças e adolescentes que você chama de novinhas, todas elas lidam diariamente com tudo isso em níveis escalonados. E quando você achar que alguma mulher está exagerando ou pegando pesado na crítica, lembre-se do vídeo do pernilongo:


Leia mais:

Justiça de SP absolve estudante de Medicina da USP acusado de estupro

A ciência do palavrão

Estupro: Uma violência de mil faces

“A vítima de estupro já chega na delegacia com culpa”

[1] Pesquisa Nacional de Vitimização, CRISP UFMG, 2013

[2] Pesquisa Datafolha para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2015

[3] Revista Época

[4] “A vítima de estupro já chega na delegacia com culpa”, da CartaCapital

[5] Pesquisa do Ipea, segundo a BBC

 

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Body literacy: quem conhece o corpo da mulher?

Com tantas consultas, exames e intervenções ginecológicas, o corpo continua sendo um mistério para nós mesmas. E a Medicina tem tudo a ver com isso.

Desde muito cedo, somos convocadas a ver um ginecologista para cuidar de nossas lady parts. O pacote de procedimentos de rotina é extenso, gerando responsabilidades e custos. A impressão é que estamos “sob controle”. Entretanto, a qualquer atraso menstrual, inchaço estranho ou corrimento desconhecido, bate o desespero. Será que todo o tempo e disposição que dedicamos aos consultórios ginecológicos realmente nos fazem sentir mais seguras sobre nossa saúde? Minha aposta: não.

Explico: você sabia que ovula apenas um dia por ciclo, e portanto, são apenas cerca de três dias em que pode  realmente engravidar?

Que as variações hormonais ao longo do ciclo podem te deixar mais aberta a novas experiências, mais criativa, ou mais introspectiva?

Ou que, quando toma anticoncepcional, você não tem período fértil?

Ou que o clitóris é muito mais que um pontinho, com ramificações em volta da vagina e na direção das coxas?

Pois é, amigas.

Com tantas consultas, exames e medicamentos, a gente ainda não conhece o nosso corpo

E permanece a sensação de que precisamos manter esse monstrinho bem controlado. E dá-lhe pílula, exame de toque, papanicolau, mamografia. Qualquer mal-estar, “é gravidez!”; desconforto com os médicos, “é frescura!”; não querer a pílula, “é loucura!”; e, vai ficar nervosa? “É TPM!”.

A ideia de descontrole do corpo feminino – e o consenso social sobre isso – tem origem milenar

Desde os primórdios da medicina ocidental, na Grécia Antiga, Hipócrates teorizou sobre o “útero errante*” – órgão que ficaria perambulando pelo corpo feminino e geraria intensos distúrbios.

Isso deu origem ao conceito de Histeria, uma doença de mulheres incontrolavelmente descontentes – que tinha como sintomas o desejo sexual intenso, ou a ausência dele, o “nervosismo”, “uma tendência a causar problemas”, entre vários outros. Especialmente durante o século XIX, em que as bases da Medicina moderna se consolidaram, esse era o grande diagnóstico das mulheres. Como tratamento, desde a hipnose, às curiosas massagens genitais (sério), até a histerectomia (remoção cirúrgica do útero).

“A mulher é mulher em virtude da falta de certas qualidades” – Aristóteles

Com o avançar dos anos, a Histeria deixou de ser considerada doença, mas permanaceu o approach médico digamos, histérico, ao corpo da mulher. Em seu livro Inventando o Sexo, o historiador e sexólogo Thomas Laqueur faz um recorrido pela evolução da Medicina e sua compreensão dos dois sexos, mostrando como o corpo masculino foi tomado como a regra, enquanto o feminino foi analisado em comparação – o famoso segundo sexo. Ou seja, com o corpo masculino como modelo principal, as especificidades do corpo feminino tornam-se excessos, ausências – e assim elas são compreendidas e descritas.

Emily Martin aponta, em suas pesquisas, a negatividade na descrição científica dos processos biológicos femininos. Palavras como perda, queda, falha, instabilidade e ausência são extensamente utilizadas nos livros didáticos, nos manuais médicos. O corpo da mulher é tido como inerentemente falho.

Por exemplo: a fixação pela gravidez. Temos a ideia de que todo mês o corpo se prepara para gerar um filho.  Por que tomamos essa perspectiva se, na verdade, na imensa maioria do tempo de vida de uma mulher, ela passa por todas as fases de seu ciclo sem engravidar? Ou seja, se o que absolutamente todas as mulheres saudáveis compartilham é a menstruação e as variações do ciclo, por que permanecemos enfocando a gravidez como evento principal? E compreendendo a menstruação como desperdício, falha? Nem toda mulher é mãe. Mas toda mulher saudável naturalmente menstrua.

Toda essa história cultural nos levou a compreender o corpo da mulher como inerentemente deficiente

A “ausência” mensal da gravidez (menstruação), o “distúrbio” das variações hormonais (TPM), a “falência” dos hormônios reprodutivos (menopausa), etc. Tudo isso nos leva de volta aos consultórios médicos.

Exame de toque, mamário e papanicolau; pilula anticoncepcional para todos os males – “regular” o ciclo, “controlar” a TPM, os ovários policísticos, a acne, e finalmente, a fertilidade. São incontáveis as intervenções médicas em nosso corpo.

Enquanto a OMS indica, por exemplo, o invasivo e por vezes doloroso papanicolau apenas a partir dos 25 anos, a maior parte dos médicos o realiza como rotina. E a grande gama de efeitos colaterais da pílula não é discutida na prescrição desse método contraceptivo às pacientes. O parto normal, então, é evitado fortemente, ou realizado com intervenções desnecessárias e violentas. E a terrível mamografia vem sendo muito questionada, pela possibilidade de fazer mais mal do que bem às mulheres.

Mas, nos consultórios, nada disso parece assunto nosso

Só quem já foi a médicos diferentes com os mesmos resultados de exames sabe o quanto as decisões e percepções deles interferem no prognóstico – deixando nossas vozes e vontades, muitas vezes, silenciadas. Obviamente, a Medicina é uma ciência em progresso; não quero com esses apontamentos parecer ingrata pelos cuidados médicos. O que preocupa é o distanciamento de nós mesmas com relação à nossa saúde – recorrentemente, parece que não temos escolha. Para evitar isso é que precisamos de mais leituras, mais debates, mais autoconhecimento. E de médicos mais preparados.

Nosso corpo não está em descontrole, ele tem um equilíbrio que precisamos conhecer

Aprendendo nossos ciclos, sabemos identificar melhor as alterações nele. Podemos saber quando realmente corremos o risco da gravidez. Podemos escolher o método contraceptivo mais adequado a nossas necessidades. Podemos entender melhor como a pílula e a cesariana nos afetam. Conhecendo os remédios e procedimentos, podemos decidir mais conscientemente sobre os tratamentos, interagir de maneira mais saudável com os profissionais de saúde, e viver melhor com nosso corpo.

Para saber mais:

Laura Wershler, Body Literacy

Fique Amiga Dela, Histórias do Corpo: Ciclos e Ritmos

Holly Grigg-Spall, Sweetening the Pill.

Clitóris: O Prazer Proibido (VÍDEO)

Emily Martin, A Mulher no Corpo.

Thomas Laqueur, Making Sex.

Histeria (FILME)

Fox News, Mammograms do not reduce breast cancer deaths, study finds

Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo.

*Tradução livre para wandering womb.