O nosso sexo

O emblemático "A origem do mundo" de Gustav Courbet, chocando a sociedade pela simples exibição do sexo feminino como é

O emblemático “A origem do mundo” de Gustav Courbet, chocando a sociedade pela exibição do sexo feminino como é

Em nossa sociedade, pouco ou nada se fala sobre os genitais femininos. Vulva, xoxota, boceta:  todos os nomes possíveis nos constrangem. Associada sempre ao obscuro, ao desconhecido – à intimidade e ao segredo. É perceptível: a relação pública que as mulheres estabelecem com suas partes íntimas é aquela da discrição absoluta. Isso quando não ocorre o mesmo em sua relação privada com o próprio corpo, com a vergonha de se ver e sentir.

Desse modo, escondemos ferozmente da vista alheia os absorventes, no caminho até o banheiro. Evitamos qualquer menção ao nosso sexo, especialmente na frente dos homens, porque a vulva é sempre suja ou pornográfica – o que pode dar na mesma. Insinua-se o mal cheiro, a presença abominável de pelos e as anatomias depreciáveis1. Ao contrário do que acontece com eles, a vulva não serve como sinônimo da força do gênero, como figura de linguagem para o vigor ou a violência. A vulva não é como o pau: não aparece, não é tema nem protagonista de metáforas. Ao urinar, abaixamos e a escondemos2; não a colocamos para fora na tentativa de reprimir ninguém3.

Pois bem, antes que comecem as explicações fundadas na natureza do corpo feminino, quais sejam uma anatomia notadamente “retraída” ou um comportamento mais “recatado”, vamos falar daquilo que muita gente não sabe. Diferentemente do que para a cultura ocidental moderna parece universal, ou seja, a vulva sempre associada  ao sexo, à pornografia e até à submissão, na realidade ela aparece dotada de muitos outros significados, em diversos pontos na história humana e pulverizada pelo globo.

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O orgulho e a sacralidade da vulva

Na arte pré-histórica, a figura mais habitualmente presente é a do sexo feminino, o que atraiu a atenção dos arqueólogos. A interpretação dessas imagens, entretanto, está submetida ao tempo do pesquisador, e à  orientação política de seu saber. Muitas vezes compreendida como símbolo da fertilidade e do sexo, a imagem da mulher e seu órgão sexual pode representar uma série de outras significações, à diferença do que delas se entende hoje. Uma das possibilidades é mesmo a do feminino sagrado4, em uma compreensão completamente divorciada do divino masculino que temos como paradigma.

A perversão parece uma insanidade judaico-cristã perto do orgulho exibido das sheela-na-gig, presentes em massa nas fachadas de edifícios medievais na Inglaterra, Irlanda, Gales, oeste da França, norte da Espanha e Escócia. Elas são imagens de mulheres afastando as pernas e mostrando a vulva, muitas vezes utilizando as mãos para facilitar a visão. Seu semblante é calmo e orgulhoso, seus genitais são representados em um tamanho grande.

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O historiador chocado e o escracho das bakweri

O gesto ana-suromai foi nomeado pelo célebre Heródoto, tendo encontrado no antigo Egito uma sociedade que entendeu como diametralmente oposta à sua. Ao contrário de sua Grécia patriarcal, o historiador presenciou um arranjo social em que as mulheres eram comerciantes e negociadoras, os homens teciam, e em alguns rituais religiosos como no da deusa Bubastis, as mulheres exibiam orgulhosamente sua vulva. O gesto de levantar as saias e mostrar o sexo está presente em diversas culturas por todo o mundo, da Itália à Índia, podendo representar a força, a fertilidade, a agressividade e espantar o mal.

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Uma das estórias mais interessantes que encontrei foi sobre a sociedade bakweri, que na segunda metade do século XX habitava uma região no oeste de Camarões, na África. De acordo com a tradição ritual local, as mulheres faziam a exibição coletiva de seus genitais ao homem que tivesse ofendido seu sexo. As mulheres da aldeia rodeavam o ofensor para exigir-lhe uma retratação imediata, e uma compensação material. Caso não obedecesse, elas começariam a dançar, entoando canções de conteúdo sexual e mostrando suas vulvas. Cantavam, por exemplo: “O titi ikoli é algo muito belo, e não merece insultos”. Titi ikoli pode ser, na língua bakweri, algo lindo, ou de valor incalculável. Pode ser também um palavrão. E também se associa aos genitais femininos, e com a divulgação dos segredos das mulheres.

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O assunto não termina aqui, nem poderia

Com todos esses exemplos, o que quero é demonstrar a diversidade de significados que podemos dar ao nosso corpo. Temos que falar da vulva, da vagina, da xana, da maneira como queremos. É muito difícil abordar esse tema tão pouco explorado, e ainda muito estigmatizado. Creio que cada tópico aqui poderia se transformar num novo texto, mas a proposta é mesmo trazer a riqueza do assunto. Comecemos a olhar, e a seguir essa investigação sobre o nosso sexo. Contribuições e ideias serão mais que bem vindas.

Os exemplos desse texto foram coletados no incrível livro de Catherine Blacklegde, A História da Vagina, que garimpei por acaso numa feira em Buenos Aires mas pode ser comprado na própria editora brasileira, em português. A esse respeito, também existe o mais recente livro da Naomi Wolf, que por enquanto só está disponível em inglês, mas a Folha publicou um pequeno trecho traduzido. Por fim, deixo o Grande Mural da Vagina, obra do escultor Jamie McCartney que tomou como molde as partes íntimas de centenas de voluntárias, com o intuito de mostrar a diversidade das formas femininas.

"The great wall of Vagina", de Jamie McCartney

“The great wall of Vagina”, de Jamie McCartney, mostra a beleza e a diversidade das formas contra o avanço da cirurgia plástica íntima

 

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Referências

1) Cirurgia plástica íntima é mania mundial que preocupa ginecologistas

2) O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir

3) Alunos da USP ficam pelados em trote para hostilizar feministas em São Carlos

4) Vênus, de Tatiana M. no ótimo blog Viva la Vulva.

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A beleza inimiga

É impressionante a quantidade de revistas, blogs, programas televisivos e livros que têm como objetivo nos ensinar a ser mulheres melhores. Mais bonitas, mais atléticas, mais profissionais. Como conseguir conciliar os diversos papéis da mulher perfeita, sem descer do salto, sem engordar, sem perder a sensualidade, sem envelhecer.

Os grandes ícones da beleza contemporânea são chamados pela escritora estadunidense Naomi Wolf de professional beauties, em seu livro The Beauty Myth (O Mito da Beleza). Elas são mulheres de sucesso, que conhecemos pela tevê e estão estampadas nas capas das revistas de comportamento. Atrizes, cantoras, apresentadoras, políticas, jornalistas, executivas, chefs de cozinha, artistas plásticas. Todas elas, além de ter uma carreira consolidada (não como modelos) e receber muitos milhares de dinheiros todo mês, também são referência em termos estéticos, e ai delas se não forem. Cada mudança visual é publicada e questionada com afinco, e elogiada e repreendida conforme a opinião dos especialistas.

Elas confidenciam seus regimes, cremes caros e hábitos cuidadosamente planejados para deixá-las assim flawless, magérrimas, malhadas, depiladas, viçosas. São a prova viva da perfeição, é parte de seu show. As indústrias da moda, dos cosméticos e dos procedimentos de beleza (incluindo cirúrgicos) nos fazem crer que, com algum esforço y mucha plata, também podemos ser como elas.

Wolf explica como a imposição de uma excelência estética às mulheres também pesa no mercado de trabalho, medindo nosso valor (há regras explícitas sobre maneiras de vestir e portar-se, segundo idade e cargo) e serve, ao passo, como justificativa das desigualdades. Afinal, uma mulher bonita tem sucesso devido a sua aparência, a estagiária provocou o assédio, a chefe durona é mal amada, e uma mulher “feia” nunca teve perfil para ser âncora de telejornal.

Ainda sim, o discurso do triunfalismo não tarda em querer convencer que a igualdade já chegou.  Segundo a autora, manter umas poucas poderosas em evidência ajuda a disciplinar e, ao mesmo tempo, maquiar a enorme diferença salarial da grande massa feminina, as discriminações por gênero, e o assédio. Alardeia-se a “vitória” das mulheres, a Dilma Roussef, a Graça Foster, e vem a Beyoncé cantar que nós mandamos no mundo.

Para o gênero feminino, é mais que manjada a naturalização da necessidade de consumir e da eterna insatisfação com a aparência. Wolf entra aqui, explicando que cultivar estas sensações nas mulheres é necessário para manter o sistema de submissão.  Nós “não temos o que vestir” porque de fato, nenhuma roupa parece completamente adequada ao ambiente de trabalho: nossos corpos não são bem vindos ali. A sexualização do corpo feminino é amplamente constrangedora, sendo sempre um mecanismo de controle e depreciação das mulheres que trabalham. Para nos julgar, o sexo sempre está em questão no mundo profissional.

O mais interessante do conceito de Wolf é perceber como este padrão funciona para nos vulnerabilizar: seja por estarmos dentro, fora ou em seu limiar, tentando provar nosso valor inclusive profissional. Existe uma contradição intrínseca aos esforços cotidianos por ser mais “belas”. Ao mesmo tempo em que estar dentro do padrão garante elogios e certa sensação de “dever cumprido” – estar com as pernas em dia, ser inesquecível, projeto verão etc -, além de certo poder atrelado a uma sexualidade que fetichiza corpos plásticos, isso nos fragiliza. Porque de salto,  nossas pernas torneadas não conseguem correr. A míni saia e o decote são desculpas para o assédio onde quer que seja, andar nas ruas é ser constantemente lembrada de seu lugar na hierarquia dos gêneros. O corpo feminino, não importa por baixo de quantos panos esteja, é sempre a causa da violência.

Essa incessante disputa entre nós – e dentro de nós- é a dama de ferro que a todas enclausura. O livro está disponível em pdf no link abaixo.

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Referências: O Mito da Beleza, Naomi Wolf
Brasil.gov.br: Desigualdade de Gênero – Mulheres x Homens