A perfeição é uma farsa

Amal Alamuddin é uma advogada poderosa. Fala três idiomas, é conselheira do ex-secretário-geral da ONU e estava acompanhando o marido, uma das maiores estrelas de Hollywood. Em Cannes, encantadoramente vestida, NÃO CONSEGUIU SUBIR A P____ DE UMA ESCADA.

Amal Alamuddin é uma advogada poderosa. Fala três idiomas, é conselheira do ex-secretário-geral da ONU e estava acompanhando o marido, uma das maiores estrelas de Hollywood, em Cannes. Encantadoramente vestida, não conseguiu subir uma escada sozinha.

Ser perfeita nunca foi uma ideia que me agradou muito. Talvez porque eu nunca tenha sido muito “boa” nisso, ou provavelmente porque a contraparte obrigatória dessa ideia é um fracasso escandaloso. Mesmo quando você acerta.
Explico: nós mulheres somos confrontadas com ideais etéreos, e a nós são atribuídas tarefas hercúleas de auto-transmutação constante.
É como se a perfeição estivesse sempre a um passo mais, um investimento maior, uma dedicação um pouco mais disciplinada. Porque simplesmente “ser” não é permitido.
E então vamos nós, seguindo planos mirabolantes de dietas, cronogramas de estética rigorosos e regras precisas de comportamento nos relacionamentos. Fazendo jogos, planejando movimentos e posturas. Para não sermos arrogantes, para não sermos mal interpretadas, para podermos sair ao sol no verão. E mesmo assim, falhamos.
Porque sempre tem um doce que nos chama, ou porque o salto quebra. Porque fica batom no dente. Porque o alisamento não se mantém na umidade. O salto agulha não dá firmeza na passada. A roupa é tão justa que pode rasgar a qualquer momento. Porque sua calcinha não pode jamais aparecer, e pior ainda se ela for do tamanho errado. E os seus peitos, eles sempre serão do tamanho errado.
Essa expectativa difusa nos acompanha das entrevistas de emprego à nossa cama. Subimos em saltos de tortura, maquiamos a identidade na nossa pele, forjamos comportamentos que não expressam nossas emoções. Buscamos encontrar o espaço muito tênue entre a submissa e a louca, a mal-comida e a biscate, a monstra fitness e a largada. Será que existe mesmo esse lugar de ~normalidade~ em que seríamos deixadas em paz?
Não, esse lugar não existe. Porque vivemos em um sistema que alimenta nossas inseguranças. Adquirimos soluções para problemas inventados, e eles estarão sempre a mais uma compra de distância. O emprego dos sonhos está um curso mais perto. O corpo ideal é questão de  uma cirurgia mais. A nossa paz interior, em uma pílula cada manhã.
Por outro lado, vivemos relações que, muitas vezes, pressupõem essa insegurança. Seu chefe vai aceitar você ser mais competente do que ele? Tudo bem para seu marido dividir as tarefas, ou pior, receber menos que você?
Lembremo-nos que o defeito não somos nós. O defeito é construído. Qual performance poderia ser tão bem executada a ponto de perfeita? Nenhuma. Qual truque temos que fazer para que o mundo nos deixe, simplesmente, ser? Aquele de olhar para si mesma e dizer: eu sou a melhor versão de mim mesma. E isso me torna o máximo.
Chega de cumprir, frustradas, papéis toscamente interpretados de perfeição. Chega de ser apenas um rascunho de nós mesmas. Você não é uma farsa, você é carne, osso, pele e espírito. Não deixe ninguém passar por cima disso.
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Transformar o olhar

Fulana está horrível, engordou. Não saio de casa sem um batonzinho. Esse tipo de roupa só pode usar quem está magra. Ela é muito feia pra ele. Não transo sem ter feito depilação. Não uso biquíni. Que horror mulher com sovaco peludo. Mulher de bigode não dá! Ela é muito relaxada. Ela é bonita só de rosto.

Você sabe o que é body-shaming?

Numa tradução livre, body-shaming significa o ato de envergonhar-se do corpo, ou ainda, reprová-lo.

Body-shaming é sentir vergonha da gordura, dos pelos, da pele. É sempre reparar que uma mulher é “””feia”””. É se olhar no espelho e ver um amontoado de tarefas não cumpridas, não encontrar roupa que caia bem e se sentir um fracasso.

Body-shaming também é esperar a aprovação das pessoas quanto às suas formas. É sentir um alívio ao sair da academia ou do salão. É ver o corpo como um objeto a ser corrigido: tirar, acrescentar, enrijecer, esticar, até atingir alguma perfeição.

Body-loving

Body-loving, pelo contrário, é amar seu corpo. É entendê-lo, como costuma dizer a blogueira Nádia Lapa, como uma fonte inesgotável de prazer.

É amar suas formas, conhecer cada pedacinho de si. Cuidar-se, agradar-se, como quem preza o que tem de mais precioso: a si mesma.

Para falar de body-loving, minha ideia era mostrar fotos de mulheres nos desfiles de Carnaval. Não aquelas musas, os “destaques”, mas aquelas de toda forma, toda cor, todo gênero e toda idade. As mulheres com os pés na avenida, dançando seu samba-enredo com um sorriso no rosto. É lindo de ver.

Mas não encontrei absolutamente NADA na cobertura da grande imprensa, nenhuma foto que servisse para exemplificar como somos concretamente. Só estavam amplamente noticiadas as beldades profissionais.

Essa desconexão entre o que se publica e o que somos é, em boa parte, causa da angústia chamada body-shaming. Estamos sempre nos autodepreciando, ao comparar-nos com imagens irreais.

Para parar de reprovar o corpo, precisamos contemplar-nos umas às outras, perceber a diversidade que nos compõe. Devemos buscar maneiras de transformar nossos olhares. Fechar as revistas e parar de acreditar que o impossível é o desejável, que o sofrimento faz parte do processo de se tornar uma mulher. Essa ideia é absurda, mas permeia os discursos mais cotidianos sobre nós mesmas – como se não fôssemos “completas” ou suficientemente “femininas” sem corresponder a um padrão.

A interpretação do corpo como uma realidade vergonhosa é incentivada a cada instante, sabemos bem: infinitos programas televisivos de beleza e dieta, revistas com instruções para se transformar completamente, publicidade photoshopada de todo tipo nos dizendo o que é uma mulher desejável.

Nesse cenário, o que precisamos é dizer basta: aprender o mundo com os olhos da descoberta, e não com aqueles da cobrança e do julgamento.

Simples assim, eu me permiti ser livre

Simples assim, eu me permiti ser livre

Para transformar a mídia, ainda vai muita luta política, assim como nos outros espaços em que sofremos violência. Mas o que podemos iniciar já é a radicalização da nossa postura contra a criminalização dos nossos corpos da forma como são.

Então, precisamos imediatamente começar  a nos olhar melhor. Nas rodas de conversa, é necessário combater a caçada da beleza impossível, e também o julgamento da feminilidade alheia pela aparência. Vamos falar sobre sexo, mas daquilo que nos agrada e diverte, e não do que devemos esconder ou evitar. Podemos nos pintar, nos vestir colorido, curto, comprido, como quisermos: porque o nosso corpo é nossa conexão com o mundo, é o meio pelo qual sentimos prazer e expressamos vontades. Basta de patrulha! É hora de começar a se amar.

A beleza inimiga

É impressionante a quantidade de revistas, blogs, programas televisivos e livros que têm como objetivo nos ensinar a ser mulheres melhores. Mais bonitas, mais atléticas, mais profissionais. Como conseguir conciliar os diversos papéis da mulher perfeita, sem descer do salto, sem engordar, sem perder a sensualidade, sem envelhecer.

Os grandes ícones da beleza contemporânea são chamados pela escritora estadunidense Naomi Wolf de professional beauties, em seu livro The Beauty Myth (O Mito da Beleza). Elas são mulheres de sucesso, que conhecemos pela tevê e estão estampadas nas capas das revistas de comportamento. Atrizes, cantoras, apresentadoras, políticas, jornalistas, executivas, chefs de cozinha, artistas plásticas. Todas elas, além de ter uma carreira consolidada (não como modelos) e receber muitos milhares de dinheiros todo mês, também são referência em termos estéticos, e ai delas se não forem. Cada mudança visual é publicada e questionada com afinco, e elogiada e repreendida conforme a opinião dos especialistas.

Elas confidenciam seus regimes, cremes caros e hábitos cuidadosamente planejados para deixá-las assim flawless, magérrimas, malhadas, depiladas, viçosas. São a prova viva da perfeição, é parte de seu show. As indústrias da moda, dos cosméticos e dos procedimentos de beleza (incluindo cirúrgicos) nos fazem crer que, com algum esforço y mucha plata, também podemos ser como elas.

Wolf explica como a imposição de uma excelência estética às mulheres também pesa no mercado de trabalho, medindo nosso valor (há regras explícitas sobre maneiras de vestir e portar-se, segundo idade e cargo) e serve, ao passo, como justificativa das desigualdades. Afinal, uma mulher bonita tem sucesso devido a sua aparência, a estagiária provocou o assédio, a chefe durona é mal amada, e uma mulher “feia” nunca teve perfil para ser âncora de telejornal.

Ainda sim, o discurso do triunfalismo não tarda em querer convencer que a igualdade já chegou.  Segundo a autora, manter umas poucas poderosas em evidência ajuda a disciplinar e, ao mesmo tempo, maquiar a enorme diferença salarial da grande massa feminina, as discriminações por gênero, e o assédio. Alardeia-se a “vitória” das mulheres, a Dilma Roussef, a Graça Foster, e vem a Beyoncé cantar que nós mandamos no mundo.

Para o gênero feminino, é mais que manjada a naturalização da necessidade de consumir e da eterna insatisfação com a aparência. Wolf entra aqui, explicando que cultivar estas sensações nas mulheres é necessário para manter o sistema de submissão.  Nós “não temos o que vestir” porque de fato, nenhuma roupa parece completamente adequada ao ambiente de trabalho: nossos corpos não são bem vindos ali. A sexualização do corpo feminino é amplamente constrangedora, sendo sempre um mecanismo de controle e depreciação das mulheres que trabalham. Para nos julgar, o sexo sempre está em questão no mundo profissional.

O mais interessante do conceito de Wolf é perceber como este padrão funciona para nos vulnerabilizar: seja por estarmos dentro, fora ou em seu limiar, tentando provar nosso valor inclusive profissional. Existe uma contradição intrínseca aos esforços cotidianos por ser mais “belas”. Ao mesmo tempo em que estar dentro do padrão garante elogios e certa sensação de “dever cumprido” – estar com as pernas em dia, ser inesquecível, projeto verão etc -, além de certo poder atrelado a uma sexualidade que fetichiza corpos plásticos, isso nos fragiliza. Porque de salto,  nossas pernas torneadas não conseguem correr. A míni saia e o decote são desculpas para o assédio onde quer que seja, andar nas ruas é ser constantemente lembrada de seu lugar na hierarquia dos gêneros. O corpo feminino, não importa por baixo de quantos panos esteja, é sempre a causa da violência.

Essa incessante disputa entre nós – e dentro de nós- é a dama de ferro que a todas enclausura. O livro está disponível em pdf no link abaixo.

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Referências: O Mito da Beleza, Naomi Wolf
Brasil.gov.br: Desigualdade de Gênero – Mulheres x Homens