O que acontece quando você é feminista na internet

Na semana passada, um dos maiores blogs feministas do Brasil, o Escreva Lola Escreva, foi atacado por grupos masculinistas (sério, eles existem) e quase saiu do ar. E depois de uma conversa com outra blogueira maravilinda, resolvi compartilhar um pouco do que acontece quando você resolve ser feminista na rede, a partir da minha experiência com este blog e a página Falou Machão.

 

  1. Haters gonna hate

O termo hater (algo como “odiador”) é tão preciso como assustador. Da mesma forma que grupos ativistas de direitos humanos estão na internet, também estão aqueles que acham que feminismo é mimimi. Pior que isso, estão os citados masculinistas, grupos ativamente contra os direitos das mulheres. Além de compartilharem conteúdo defendendo estupros, pedofilia e todo tipo de violência, eles também se organizam para derrubar blogs e páginas que começam a se destacar. Eles fazem comentários odiosos, costumam usar termos como “meter a real” e criam muito – mas muito – conteúdo fake pra deslegitimar o movimento. Tem uma página do Facebook que eu sinceramente acho que se enquadra nesse naipe, a Feminismo real. Vejam e me digam o que acham, eu sinceramente duvido que haja um grupo feminista por trás dela, porque todos os argumentos são distorcidos e chegam a conclusões bizarras, além de não ter nenhuma referência a um lugar ou pessoas reais. Parece algo feito para reforçar estereótipos, preconceito e ódio. Então lidar com esse tipo de coisa pode se tornar diário. Aqui no blog eu só não aceito comentários de ódio, pronto; mas em casos como o da Lola, o assédio se torna caso de polícia (ameaças de morte, ligações na casa dela, vazamento de dados etc).

 

  1. Seus amigos ficam meio assim

Rola uma rotulagem complicada no seu círculo social. As pessoas ficam receosas de falar algo e você taxá-las de machista; algumas mandam indiretas toscas e várias delas querem te provar que você está exagerando. É o lance do “toda ação tem uma reação”, e no geral as pessoas se esforçam muito por acreditar que tudo no mundo anda bem. O lado positivo é que está aberto o debate e na verdade essas pessoas se interessaram pelo que você levantou; estão só esperando o que você tem a dizer. E se for pura picuinha, aos poucos você aprende o que vale a pena uma discussão e o que não vale. Mas ver alguns velhos amigos começando a abrir os olhos, por outro lado, é maravilhoso.

 

  1. Seus argumentos ficam melhores

Já que você tem que lidar com as críticas no mundo virtual e também no mundo real, você acaba ganhando mais habilidade nisso. Aos poucos, vai vendo que algumas críticas têm razão e contribuem para o que você cria. E vai entendendo melhor também o outro lado, entendendo como cada argumento se constrói e o melhor – como desconstruí-lo com muito mais facilidade, expondo os discursos de ódio em três, dois, um.

 

  1. Você ganha responsabilidades

Junto com os críticos, também aparecem as pessoas que curtem o que você escreve, acompanham suas criações e esperam sempre mais. São pessoas maravilhosas, que te ajudam a crescer e ser uma pessoa melhor. E elas estarão lá esperando – sua opinião, sua contribuição com o debate – e muitas vezes sua ajuda real. É muito comum mulheres em situação de violência ou precisando de qualquer outro apoio só encontrarem na internet alguém para compartilhar o que estão passando. Então, saber como lidar e como ajudar de verdade também é uma questão importante; nós acompanhamos histórias reais de pessoas reais com problemas reais. Para ajudar, só os contatinhos: órgãos governamentais e não governamentais de defesa dos direitos das mulheres, grupos de acolhida e militantes, advogadas, médicas, políticas feministas; além dos conhecimentos básicos sobre legislação – como o das maravilhosas Promotoras Legais Populares, podem ajudar. E aí você vai descobrindo uma maravilhosa rede de apoio. <3

 

  1. Você fica mais forte

A melhor parte de ser feminista na rede é que você descobre que não está sozinha nem louca. Você se informa melhor, encontra pessoas incríveis que te ajudam a crescer e a ser mais forte. Você descobre que falar sobre Feminismo é preciso para decidirmos o que fazer a respeito do machismo, seja coletivamente ou logo aí onde você está agora.

 

 

Leia também:

 

Escreva Lola Escreva, Eles não amam as mulheres, Violência não é sobre amor: dissecando a carta do assassino de Campinas.

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A perfeição é uma farsa

Amal Alamuddin é uma advogada poderosa. Fala três idiomas, é conselheira do ex-secretário-geral da ONU e estava acompanhando o marido, uma das maiores estrelas de Hollywood. Em Cannes, encantadoramente vestida, NÃO CONSEGUIU SUBIR A P____ DE UMA ESCADA.

Amal Alamuddin é uma advogada poderosa. Fala três idiomas, é conselheira do ex-secretário-geral da ONU e estava acompanhando o marido, uma das maiores estrelas de Hollywood, em Cannes. Encantadoramente vestida, não conseguiu subir uma escada sozinha.

Ser perfeita nunca foi uma ideia que me agradou muito. Talvez porque eu nunca tenha sido muito “boa” nisso, ou provavelmente porque a contraparte obrigatória dessa ideia é um fracasso escandaloso. Mesmo quando você acerta.
Explico: nós mulheres somos confrontadas com ideais etéreos, e a nós são atribuídas tarefas hercúleas de auto-transmutação constante.
É como se a perfeição estivesse sempre a um passo mais, um investimento maior, uma dedicação um pouco mais disciplinada. Porque simplesmente “ser” não é permitido.
E então vamos nós, seguindo planos mirabolantes de dietas, cronogramas de estética rigorosos e regras precisas de comportamento nos relacionamentos. Fazendo jogos, planejando movimentos e posturas. Para não sermos arrogantes, para não sermos mal interpretadas, para podermos sair ao sol no verão. E mesmo assim, falhamos.
Porque sempre tem um doce que nos chama, ou porque o salto quebra. Porque fica batom no dente. Porque o alisamento não se mantém na umidade. O salto agulha não dá firmeza na passada. A roupa é tão justa que pode rasgar a qualquer momento. Porque sua calcinha não pode jamais aparecer, e pior ainda se ela for do tamanho errado. E os seus peitos, eles sempre serão do tamanho errado.
Essa expectativa difusa nos acompanha das entrevistas de emprego à nossa cama. Subimos em saltos de tortura, maquiamos a identidade na nossa pele, forjamos comportamentos que não expressam nossas emoções. Buscamos encontrar o espaço muito tênue entre a submissa e a louca, a mal-comida e a biscate, a monstra fitness e a largada. Será que existe mesmo esse lugar de ~normalidade~ em que seríamos deixadas em paz?
Não, esse lugar não existe. Porque vivemos em um sistema que alimenta nossas inseguranças. Adquirimos soluções para problemas inventados, e eles estarão sempre a mais uma compra de distância. O emprego dos sonhos está um curso mais perto. O corpo ideal é questão de  uma cirurgia mais. A nossa paz interior, em uma pílula cada manhã.
Por outro lado, vivemos relações que, muitas vezes, pressupõem essa insegurança. Seu chefe vai aceitar você ser mais competente do que ele? Tudo bem para seu marido dividir as tarefas, ou pior, receber menos que você?
Lembremo-nos que o defeito não somos nós. O defeito é construído. Qual performance poderia ser tão bem executada a ponto de perfeita? Nenhuma. Qual truque temos que fazer para que o mundo nos deixe, simplesmente, ser? Aquele de olhar para si mesma e dizer: eu sou a melhor versão de mim mesma. E isso me torna o máximo.
Chega de cumprir, frustradas, papéis toscamente interpretados de perfeição. Chega de ser apenas um rascunho de nós mesmas. Você não é uma farsa, você é carne, osso, pele e espírito. Não deixe ninguém passar por cima disso.

Sangue Bom: a revolução menstrual

Pare de rejeitar sua menstruação e dê o próximo passo da sua liberdade

No último post, falei sobre as diversas maneiras pelas quais nossa sociedade rejeita a menstruação. Seja no trabalho, nas rodas de amigos, na publicidade ou nos milhares de produtos e medicamentos feitos para “remediar” o “problema”, parece que só temos coisas ruins para falar desse acontecimento mensal na vida das mulheres.

Mas afinal, menstruamos e temos que lidar com isso. Diante desse cenário, como viver melhor a sua menstruação? Aqui vão algumas dicas.

  1. Aceite

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 Chega de nojinho. Menstruar é um acontecimento que todas as pessoas nascidas mulheres compartilham, salvo raras exceções. Ela não é suja, não é errada e faz parte da sua saúde – já que o fato de ela não vir geralmente é o que indica uma alteração. Em diversas sociedades tradicionais, é, inclusive, considerada um acontecimento sagrado e símbolo da força de criação feminina. E muitas mulheres a consideram o primeiro passo para a vida adulta, com uma carga simbólica muito poderosa. Ouça mais o seu íntimo, e menos o consenso social sobre a menstruação. Afinal, quem ganha com a ideia de que algo natural do seu corpo é sujo, falho, repugnante?

  1. Largue os absorventes

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Uma das principais causas da rejeição à menstruação está ligada ao péssimo desempenho dos absorventes descartáveis em nos ajudar nesse período. Além de caros, estes produtos “anti-odor” são desconfortáveis e muitas vezes cheiram mal quando usados, porque permitem que o sangue menstrual entre em contato com o oxigênio.

Eles abafam a região genital, dando uma sensação de calor e umidade, além de promoverem o ambiente perfeito para a proliferação de micro-organismos. Isso pode alterar o pH vaginal, propiciando o surgimento de infecções – e com elas, mais mau cheiro, corrimentos etc.  Sem falar no risco da terrível síndrome do choque tóxico.

Para perceber a diferença de menstruar sem usar absorventes descartáveis, você pode começar deixando a calcinha sujar um pouco (sem neura!) ou não usar nada (saia, shortinho largo) quando o fluxo estiver menor num dia de descanso, ou durante a noite. Vamos lá: uma eventual mancha sai com água morna; e esta pode ser uma maneira simples de ver como os absorventes são, de fato, muito desconfortáveis – e não a menstruação em si.

Para os dias de maior fluxo, opte pelos absorventes de pano ou pelo queridinho coletor. Aliás, o famoso copinho mereceria um blog só para ele, já que é um dos principais instrumentos para a autodescoberta das mulheres nos últimos tempos. Ele é ecologicamente correto, confortável, pode ser usado por até 12h seguidas, não causa reações alérgicas e o melhor: permite que você tenha um contato transformador com sua menstruação, tendo familiaridade com sua textura, quantidade e cheiro (não é fedida!!!).

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Ah, e muitas mulheres (incluindo eu) notam uma diminuição dos dias do fluxo e das cólicas com o coletor. A explicação ˜conspiratória~ seria pelo abandono dos absorventes descartáveis – que possuem em sua composição elementos tóxicos acusados de interferir no ciclo e nos fazer sangrar por mais dias. Mas o fato de o copinho fazer um vácuo que “suga” a menstruação já parece suficiente para abreviar a duração do fluxo.

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Sangue bom: o tabu da menstruação

Pare de rejeitar sua menstruação e dê o próximo passo da sua liberdade

A menstruação é um grande tabu contemporâneo. Relegada a reclamações sobre cólicas, disfarçada em pedidos constrangidos de absorventes emprestados e considerada um mero sinal da não-gravidez, sobre a menstruação temos uma realidade:

Só pode falar se for para falar mal

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É só observarmos as palavras associadas a ela: todas muito degradantes e que fazem um panorama do imaginário social a respeito.

[Regras]       [Monstra]       [Chico]       [Visita]       [Incômodo]       [Aqueles dias]       [Cheiro de peixe]       [Dita cuja]

Quem nunca ouviu um “ew” ao falar sobre isso no colégio, ou se sentiu constrangida ao precisar pedir um absorvente emprestado?

Outro exemplo é a obsessão da indústria farmacêutica – e, por consequência, dos médicos formados na sua sombra – por patologizar o ciclo menstrual. Um dos mais alardeados ~benefícios~ dos anticoncepcionais hormonais é, justamente, o controle/a diminuição do fluxo menstrual, e até mesmo sua suspensão. Uma doença que pode ser remediada. Um fardo para o qual existem infinitos produtos específicos “anti-odor”, para você estar “sempre protegida”, “sempre seca”, etc.

Aliás, não se iluda: o sangramento da pausa do anticoncepcional não é menstruação. Ele se chama de sangramento de privação, e mantê-lo foi uma escolha deliberada da indústria para dar uma sensação de naturalidade ao uso do medicamento.

O que essa realidade ignora é que a menstruação é, de fato, um dos principais sinais de saúde do corpo feminino. E os problemas relacionados a ela são, na verdade, sinais de que o corpo está em desequilíbrio – importantíssimos na hora de avaliarmos nossa relação com o mundo: saúde, relacionamentos, trabalho, e até conosco mesmas. Com a supressão desses sintomas, já não identificamos os desequilíbrios – e os mascaramos.

De fato, pode ser muito difícil ter que lidar com os sintomas do período pré-menstrual e menstrual, ainda mais porque não temos o menor incentivo para isso. Além da má fama social, no trabalho e na escola/faculdade a menstruação também não é tratada com naturalidade. Intervalos e espaços de descompressão são raridade; saídas recorrentes para o banheiro são mal vistas; e nós mesmas nos cobramos por não estar 100% empenhadas nas questões exteriores.

Tudo isso porque, no sistema capitalista, exige-se das pessoas estarem sempre produtivas, como máquinas; e no caso das mulheres, também belas e disponíveis.

Por isso mesmo, a TPM e a menstruação acabam vistas como um período de descontrole; ou ainda uma “frescura”, uma “desculpa” para trabalhar menos. Uma “fraqueza” tipicamente feminina.

O fato é que menstruamos e temos que lidar com isso. Diante desse cenário, como viver melhor a sua menstruação? É possível se libertar de verdade desse “fardo”?

 

[continue lendo]

 

Você já tentou parar com a pílula? – parte 2

Pode parecer surreal, mas estamos viciadas numa droga: a pílula anticoncepcional

Continuação desse texto. 

Mas, se a pílula não é o melhor contraceptivo, porque esse consumo obsessivo?

Já faz um bom tempo que a indústria farmacêutica sabe que o fator contraceptivo não é o grande diferencial da pílula. Isso porque, como vimos no último post, são diversos os métodos contraceptivos existentes – e a eficácia deles é muito similar. Para o seu próprio bem, a indústria escolheu focar nos chamados efeitos secundários da pílula para transformá-la em um medicamento de uso “obrigatório” para a mulher moderna.

A pílula anticoncepcional passou, então, a fazer parte dos chamados “medicamentos de bem-estar” (Lifestyle Drugs), drogas voltadas a questões que não ameaçam a vida ou trazem dor, mas que apresentam efeitos “desejáveis” ao usuário – e são legalmente prescritas e vendidas. Como qualquer outro produto, a chave do sucesso destes medicamentos é despertar a necessidade deles.

Provocar a sensação de ausência ou de deficiência do corpo, portanto, é fundamental para o mercado dessas drogas.

No caso da pílula, patologizam-se os efeitos das variações hormonais naturais do ciclo menstrual. Ou seja: a pílula é o remédio que vai corrigir o irregular, doente e incompleto corpo da mulher. Ser mulher é um pesadelo que precisa de tratamento.

As indicações da pílula vão, portanto, muito além da contracepção. Ela é a solução do problema de ser mulher: inchaço, acne, variações de humor, cólicas, a terrível síndrome dos ovários policísticos*, e mesmo a menstruação, são os sintomas a ser combatidos.

Claro que os sintomas são reais e impactam a vida de boa parte das mulheres. Mas, ao amenizar esses sintomas, a pílula não está tratando os problemas em sua origem: ela os mascara. A suspensão do ciclo hormonal natural causada por esse medicamento realmente melhora os sintomas dos desequilíbrios hormonais, mas não trata a causa dos problemas – tanto que eles reaparecem, com mais força, quanto paramos de tomar pílula. E isso pode ter consequências graves – para mulheres com SOP, por exemplo, significa uma enorme barreira para a gravidez. Para as outras, a dependência de um medicamento que traz riscos à saúde.

A introdução dos hormônios sintéticos bloqueia a função ovariana e impede a ovulação. Com isso, suspendem-se os sintomas mas também as funções dos hormônios naturais, que vão muito além da fertilidade em si.

Estima-se que a pílula intervém em mais de 100 funções do corpo feminino.

Entre os riscos mais famosos da pílula, estão os cardiovasculares, que incluem trombose, embolia pulmonar, AVC e ataque cardíaco; além do câncer de mama, de fígado, cervical, entre outros. Mas também existem outros efeitos colaterais, menos falados, que permeiam as discussões entre amigas e os consultórios médicos, e estão presentes na vida de quem toma pílula – e muitas vezes nem suspeita dela.

O uso da pílula antes dos 20 anos dobra o risco de câncer de mama.

Depressão, baixa ou nenhuma libido, dor de cabeça, tontura, alterações de humor, náusea, dor nas mamas, fadiga, dificuldade em desenvolver músculos. Deficiências nutricionais. A lista de impactos é enorme e a resposta dos nossos médicos costuma ser a mesma: troque a pílula. Mas, como falamos, a fórmula dos contraceptivos hormonais tem a mesma base**, e a origem dos problemas está justamente nos hormônios sintéticos, que são usados também no anel vaginal, no DIU hormonal, no adesivo e na injeção.

As mulheres que usam contracepção hormonal têm 2x mais depressão.

Um dos principais motivos para o abandono da contracepção hormonal é seu impacto sobre a saúde emocional – discussão que incide sobre a nossa autoconfiança, e por vezes passa como frescura para os que estão à nossa volta. Começando com 14 ou 15 anos, será que aos 25 ou 30 podemos imaginar como seríamos sem a pílula?

A questão é: não precisamos ser dependentes da pílula! Já passou da hora de parar de tomar esse remédio como se fosse água.

Não sou médica e minha intenção aqui é alertar para esse consumo impensado, a ideia da pílula-para-todos-os-problemas. Nenhum medicamento serve para todas, e nossa fertilidade não é uma doença. Há várias maneiras de lidar com os picos e vales dos hormônios com mais naturalidade, aceitação e protagonismo. É preciso conhecer outros métodos contraceptivos e terapias alternativas, aprender a ouvir nosso corpo e entendê-lo, afastando a ideia de ele está em descontrole. Essa pode ser uma experiência transformadora… Mas isso é assunto para outros posts!

 

P.S.: O objetivo desse texto é informar e questionar, nunca julgar a livre escolha de contracepção. Todo mundo tem direito de escolher o método contraceptivo (e de tratamento) que preferir.

 

Para saber mais:

1 How the Pill Became a Lifestyle Drug. American Journal of Public Health, 2015 2 Sweetening The Pill, 2013 3 The Pill Problem, 2013 4 Manual de Orientação Anticoncepção FEBRASGO, 2010 4 Planejamento familiar: um manual global para profissionais e serviços de saúde 5 The Pill: Are you sure it’s for you?, 2008

A beleza inimiga

É impressionante a quantidade de revistas, blogs, programas televisivos e livros que têm como objetivo nos ensinar a ser mulheres melhores. Mais bonitas, mais atléticas, mais profissionais. Como conseguir conciliar os diversos papéis da mulher perfeita, sem descer do salto, sem engordar, sem perder a sensualidade, sem envelhecer.

Os grandes ícones da beleza contemporânea são chamados pela escritora estadunidense Naomi Wolf de professional beauties, em seu livro The Beauty Myth (O Mito da Beleza). Elas são mulheres de sucesso, que conhecemos pela tevê e estão estampadas nas capas das revistas de comportamento. Atrizes, cantoras, apresentadoras, políticas, jornalistas, executivas, chefs de cozinha, artistas plásticas. Todas elas, além de ter uma carreira consolidada (não como modelos) e receber muitos milhares de dinheiros todo mês, também são referência em termos estéticos, e ai delas se não forem. Cada mudança visual é publicada e questionada com afinco, e elogiada e repreendida conforme a opinião dos especialistas.

Elas confidenciam seus regimes, cremes caros e hábitos cuidadosamente planejados para deixá-las assim flawless, magérrimas, malhadas, depiladas, viçosas. São a prova viva da perfeição, é parte de seu show. As indústrias da moda, dos cosméticos e dos procedimentos de beleza (incluindo cirúrgicos) nos fazem crer que, com algum esforço y mucha plata, também podemos ser como elas.

Wolf explica como a imposição de uma excelência estética às mulheres também pesa no mercado de trabalho, medindo nosso valor (há regras explícitas sobre maneiras de vestir e portar-se, segundo idade e cargo) e serve, ao passo, como justificativa das desigualdades. Afinal, uma mulher bonita tem sucesso devido a sua aparência, a estagiária provocou o assédio, a chefe durona é mal amada, e uma mulher “feia” nunca teve perfil para ser âncora de telejornal.

Ainda sim, o discurso do triunfalismo não tarda em querer convencer que a igualdade já chegou.  Segundo a autora, manter umas poucas poderosas em evidência ajuda a disciplinar e, ao mesmo tempo, maquiar a enorme diferença salarial da grande massa feminina, as discriminações por gênero, e o assédio. Alardeia-se a “vitória” das mulheres, a Dilma Roussef, a Graça Foster, e vem a Beyoncé cantar que nós mandamos no mundo.

Para o gênero feminino, é mais que manjada a naturalização da necessidade de consumir e da eterna insatisfação com a aparência. Wolf entra aqui, explicando que cultivar estas sensações nas mulheres é necessário para manter o sistema de submissão.  Nós “não temos o que vestir” porque de fato, nenhuma roupa parece completamente adequada ao ambiente de trabalho: nossos corpos não são bem vindos ali. A sexualização do corpo feminino é amplamente constrangedora, sendo sempre um mecanismo de controle e depreciação das mulheres que trabalham. Para nos julgar, o sexo sempre está em questão no mundo profissional.

O mais interessante do conceito de Wolf é perceber como este padrão funciona para nos vulnerabilizar: seja por estarmos dentro, fora ou em seu limiar, tentando provar nosso valor inclusive profissional. Existe uma contradição intrínseca aos esforços cotidianos por ser mais “belas”. Ao mesmo tempo em que estar dentro do padrão garante elogios e certa sensação de “dever cumprido” – estar com as pernas em dia, ser inesquecível, projeto verão etc -, além de certo poder atrelado a uma sexualidade que fetichiza corpos plásticos, isso nos fragiliza. Porque de salto,  nossas pernas torneadas não conseguem correr. A míni saia e o decote são desculpas para o assédio onde quer que seja, andar nas ruas é ser constantemente lembrada de seu lugar na hierarquia dos gêneros. O corpo feminino, não importa por baixo de quantos panos esteja, é sempre a causa da violência.

Essa incessante disputa entre nós – e dentro de nós- é a dama de ferro que a todas enclausura. O livro está disponível em pdf no link abaixo.

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Referências: O Mito da Beleza, Naomi Wolf
Brasil.gov.br: Desigualdade de Gênero – Mulheres x Homens