Solteira sim, sem job nunca

O povo anda com medo de se comprometer. Vejo amigos enrolados até o pescoço no mesmo script: um, dois dates. A partir do terceiro job, a coisa começa a ficar esquisita. Será que é ok mandar whatsapp a qualquer hora? Ou chamar para uma festa na firma? É, as coisas parecem que estão ficando sérias.

E aí entra o problema do briefing: ninguém fala exatamente o que quer. Se existe possibilidade de contratação, o budget real ou se é só uma concorrência. Honestidade é caso raro, mas alinhar a expectativa das entregas é essencial para dar match também na vida real. Porque mandar mene é facinho, mas na hora de trocar textão as pessoas ficam com medo de se entregar.

Claro que todo mundo ama shippar os cases de sucesso, aqueles com cara de festival. Babar nas carreiras sólidas, de estagiário a VP com fotinho oficial de casamento. Mas ninguém tá disposto a se envolver de verdade. Quando as horas vão ficando mais extras, os amigos vão sentindo sua falta e o coração palpita se toca o celular, a geração Tinder se apavora. E no perfil dos mais saidinhos eles ainda têm coragem de admitir: “não namoro, faço freela.”

Créditos da imagem: Coisas com sentimentos

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Por que as pessoas sempre agem assim com você

Na homeopatia, cada pessoa tem um medicamento próprio; e o seu remédio é feito daquilo que daria, numa pessoa saudável, o sintoma que você tem*. Isso porque, às vezes, provar um pouquinho do veneno é o que faz a gente melhorar. E a diferença entre o remédio e o veneno, sabemos, é a dose.

Muitas vezes você tem bode das pessoas. Por que me tratam assim? Por que não me ouvem? Por que me dizem as coisas que eu mais odeio ouvir? Ora, bem, vou te dizer uma dura verdade: elas só fazem isso porque você deixa.

Você senta lá na cadeirinha da dócil, que aceita tudo, ou da impulsiva, que não sabe o que quer, ou qualquer outro rótulo que você se acostumou a ter. E abre espaço para as pessoas fazerem isso com você. Você toma o venenão todos os dias, por conta própria; e quando ele aparece vindo de uma outra pessoa, o gosto já é seu velho conhecido.

Quando alguém vem e, despretensiosamente, te dá um pouquinho daquele veneno, a carapuça serve. Você conhece a dança. E resolve colocar toda a culpa na outra pessoa. Ela é como as outras. Mas quem vestiu a máscara – desculpe – foi você. É porque você se coloca assim, sabe interagir dentro desse mecanismo. Você se trata assim, é o personagem que sabe interpretar. E a outra pessoa só está deixando isso ainda mais claro para você. Pode ser essa dosinha que você precisava para dizer: chega.

Se você não tomar suas doses diárias de autodepreciação, esquecer essa ideia que formou de você mesma, uma gotinha de veneno aleatória não vai fazer nem cócegas. Você não vai entrar mais uma vez nesse compasso, nesse papel insuportável que costuma adotar em todas as suas relações.

Mas, para isso, é preciso que você ocupe seu espaço. Tire a venda, não deixe para os outros decidirem até onde eles vão com você. Defina isso antes, escolha o remédio que te faz bem. Ensaie a dança que você quer dançar, e não aquela que você detesta. O outro só começa onde você termina.

*Esse é o simmilimum, princípio que eu aprendi com meu médico Paulo Rosembaun no livro Homeopatia – Medicina sob medida.

Imagem: 8 de espadas do Tarot de Waite.

O mito das relações que terminam bem

Todo encerramento é um baque. Quer dizer: ninguém começa uma relação esperando que um dia ela vá terminar. Ninguém planta uma rosa projetando o dia em que ela irá murchar.

Agora, me surpreendem as narrativas da aceitação, as narrativas da celebração do que foi e a resiliência sobre não ser mais.

Ora, nenhum empreendimento termina sem frustração. O término pode ser um alívio; a despedida pode por fim ao sofrimento; mas o olhar sobre o passado consegue ser tão desprendido assim?

Conseguiremos lembrar de nossos mortos sem saudade? Falar de nossos ex sem resquícios de ressentimentos?

Quando o distanciamento será legítimo para um discurso totalmente desinteressado? Uma interpretação madura dos fatos, que reconhece suas benesses e superou suas perdas?

Nada garante que as pétalas que murcharam no meu coração apodrecem da mesma cor que as suas. Regar uma rosa seca na gaveta não a traz de volta ao jardim.

Quando ainda há tempo, para reavivar uma flor se deve tratar todas as pragas que a enfraquecem, adubar a terra, dar-lhe a atenção que faltou.

Agora, transformá-la em um belíssimo arranjo post mortem é um ato vaidade, e não de amor.