É preciso falar

 

Na rede, nos blogs, nas ruas. Mas também no tête-à-tête, na hora que acontece e com quem acontece.

Uma vez, eu estava esperando um ônibus para casa, já passava das 8 da noite, quando ouvi um homem gritando muito. Ele dizia insultos horríveis, como: você é burra, você faz tudo errado, eu só passo vergonha com você. Fui me aproximando, preocupada, com medo, com revolta. Era um homem alto, grande, gritando com uma mulher que carregava várias sacolas – todas as coisas dela. Eu fui chegando perto, não sei com que coragem, meio atordoada pela situação. Ele, percebendo minha aproximação, esbravejava que ela deveria ir embora logo com ele. A mulher permanecia imóvel.

Aterrorizada, mas firme, consegui balbuciar para a mulher: “Você não precisa ir. Não vai, não”. O homem, furioso, aumentou as ameaças mas não veio para cima de mim. Dizia que estava passando vergonha na rua por causa dela. Que iria reclamar com a mãe dela, e que ela ficasse esperta também com sua menina, porque isso não iria passar em branco. Ela se mantinha atônita, não se movia. Até que, como por um milagre, ele desistiu. Ela disse que não ia. Eu fiquei. Ele foi embora.

Devo ter dado sorte. Devo ter o santo forte, ou a lua estava na posição certa naquele momento. O que eu sei é que falei, e me mantive ali, ao lado dela. E isso foi importante para Elaine, com quem fiquei por mais uma hora depois, e que soluçava, grata, porque conseguiu enxergar em mim uma aliada, e teve coragem para não ir mais para casa com ele.

Na noite anterior, ela tinha sonhado com uma mulher em sua cama. E achava que era eu. Naquela noite, ela encontrou em mim a coragem que procurava em si mesma.

Ficar ao lado dela foi uma das experiências mais malucas que já passei. Eu poderia ter sido agredida. Ela poderia ter sido agredida. Talvez ela rejeitasse minha ajuda. E ele poderia voltar a qualquer momento. Mas não aconteceu assim.

Falar, sempre que pudermos, é importante. Em público, nas redes, nas ruas. Mas no dia a dia também. Na hora em que um homem interrompe a fala de nossa colega, na hora que vemos uma desconhecida ser assediada no metrô. A violência nos cerca, mas precisamos lembrar que não estamos sozinhas. E manter-nos ao lado de nós mesmas.

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A Casa de Lua está fazendo aniversário

casa de luaOrganização feita de mulheres para mulheres celebra seu primeiro ano de feminices

 
Para um olhar pouco atento, pode parecer boba a ideia de “assuntos de mulher”. Isso porque a cultura mainstream convencionou tratar-nos como mentes infantis, cujas preocupações giram em torno do universo masculino ou de cuidados. Mas a Casa de Lua, perto do metrô Vila Madalena, é um excelente exemplo de que a mulherada tem muito conteúdo – e boa parte dele só diz respeito a nós.
Quando falam de mulher, a publicidade e a imprensa tendem a pintar um quadro muito chato. Como se a nós interessasse apenas consumir e ser boas mães, namoradas, esposas. Basta passar o olho numa banca de revistas ou assistir os anúncios da TV; ou mesmo observar as cenas de uma novela típica. É, na verdade, bastante incentivo para agir feito satélites da vida alheia. Mas – como eu e você bem sabemos – nós mulheres somos muito mais que isso. E é aqui que entra a proposta da Casa de Lua.
A Casa de Lua é um espaço para “coisas de mulher”  – seja trabalho, maternidade, saúde, política, arte, lazer. Tudo com o coração aberto e sem preconceito. A princípio um escritório de coworking, em que habita “uma lógica de trabalho que respeita as diferenças, ciclos e ritmos femininos”, a casa abriga encontros para debater temas de interesse de mulheres de todas as idades, bem como cursos, ateliê de arte, editora e eventos.
São poucos os lugares, na verdade, que são receptivos aos temas tão diversos que compõem o universo feminino. Por exemplo, eu fui num debate sobre parto humanizado; na Copa teve comidinhas e telão; essa semana começou um curso de revisão de texto; na semana que vem tem um curso de crochê; e em agosto o lançamento de um livro sobre a prática do swing.
Na fantástica Casa de Lua, ser mulher é tudo isso: ser inteira, compartilhar experiências típicas do nosso gênero, do nosso sexo. Que ela comemore ainda muitos e muitos anos, em fases cada vez mais prósperas, com mais e mais mulheres cheias de orgulho de viver as várias face da experiência da feminilidade.

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Casa de Lua

Rua Engenheiro Francisco Azevedo, 216

casadelua.com.br

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