Sangue Bom: livre para menstruar

Pare de odiar sua menstruação e dê o próximo passo da sua liberdade

Continuando o assunto dos últimos posts, vamos ver como podemos viver nossa menstruação com mais tranquilidade.

3. Repense o anticoncepcional

A pílula (e todos os contraceptivos hormonais, como anel, implante e adesivo) suspende seu ciclo de variação hormonal natural e introduz hormônios artificiais em doses estáveis ao longo do mês, melhorando alguns sintomas percebidos no ciclo natural. Mas, se a manutenção de um nível estável de hormônios artificiais acaba com os “vales” do nosso ciclo, também impede os “picos”. Ou seja: ficam inibidos os momentos de “fragilidade”, mas também aqueles de “poder” e autoconfiança promovidos pelas variações naturais do nosso corpo.

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E os benefícios da pílula para os sintomas do período pré-menstrual e menstrual muitas vezes nem são tão vantajosos assim. Se diminui as cólicas, muitas mulheres relatam uma instabilidade emocional maior com a pílula, e até mesmo depressão. Se reduz as espinhas, a baixa na testosterona dificulta o fortalecimento muscular e dá menos vigor físico – a famosa fadiga. Sei que é difícil encara essa possibilidade, mas tomar esse remédio diariamente pode estar, na verdade, prejudicando o seu bem-estar.

(Falando nisso: você já tentou parar com a pílula?)

Talvez optar pela camisinha, o diafragma ou o DIU de cobre como contraceptivo não seja tão ruim assim. E descobrir novas formas de encarar as cólicas, a irritabilidade, as espinhas e outros sintomas do ciclo é uma tarefa desafiadora, mas não impossível. O que nos leva ao próximo ponto.

4. Observe-se, conheça-se, respeite-se

Como já falei antes aqui, a medicina tradicional e a indústria farmacêutica são baseadas numa separação muito clara entre os detentores do conhecimento sobre o corpo e as donas desses corpos – ou seja, nós. Isso faz com que seja difícil nos sentirmos seguras sobre nossos próprios ciclos e nossa saúde, porque sempre tem alguém que sabe mais para interferir nas nossas decisões. E decidir por nós, dentro de um cenário totalmente paternalista da relação médico-paciente. Para reverter isso, não tem jeito: é preciso se informar e se observar, desconstruindo a ideia de que somos “maquininhas com defeito”.

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Para as mulheres que nunca tomaram pílula ou começaram apenas na idade adulta, foi possível aprender a perceber que as flutuações hormonais ao longo do ciclo impactam e muito a nossa percepção do mundo. Para quem começou desde cedo com ela, e não teve oportunidade de se adaptar ao próprio ciclo, pode ser estranho pensar em aproveitar as características de cada fase. Mas pode ter certeza: fazer isso ao invés de repreender seu corpo pode ser extremamente vantajoso.

Por exemplo: nos momentos de maior introspecção, como pode ser o período menstrual, podemos tentar nos preservar de possíveis conflitos, evitando embates e discussões. Por outro lado, muitas mulheres sentem a autoconfiança lá em cima perto da ovulação – e ficam mais seguras de si, cheias de energia para encarar disputas e tarefas mais desafiadoras. Pode parecer papo de horóscopo, e veja só: não estou dizendo que somos limitadas aos nossos hormônios. Mas, assim como os alimentos que comemos, o ambiente em que vivemos e os relacionamentos em que estamos fazem diferença sobre o nosso bem-estar, também acontece com as variações hormonais naturais pelas quais passamos. Caminhar pela manhã quando ainda está fresco é muito mais fácil do que ao meio-dia; consertar o telhado fica mais simples quando não está chovendo.

Observar-se e identificar seu estado físico e emocional é o primeiro passo para avaliar o quanto você vai se permitir envolver/desgastar em cada questão. Cada mulher tem seu próprio padrão de variações, então só você vai poder descobrir como usar cada fase do seu ciclo para maximizar seu bem-estar – e respeitar seu corpo.

5. Junte azamiga

Para facilitar todo esse processo de autoconhecimento – e empoderamento, nada melhor do que boa companhia. Em um mundo onde é proibido menstruar (ou ter orgulho disso), trocar informações, experiências e apoio é realmente transformador.

Quantas vezes não usamos o tabu a nosso favor? Justamente por ser um segredo, é nesse espaço de privacidade que encontramos empatia uma com as outras. Emprestar um absorvente ou uma roupa, indicar um chazinho ou um remédio para cólicas. Lembrar sua amiga num dia difícil que ela só está “de TPM”, menos tolerante com as dificuldades do mundo e isso é completamente normal, pode ajudar a acalmar as coisas. Às vezes, precisamos de um colo, ou um pouco de descanso do mundo. Perceber esse momento e encontrar uma brechinha para si mesma em sua própria vida pode ser uma verdadeira revolução.

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Leia também:

Mitos e Fatos Sobre a Menstruação, O Lado Oculto da Lua; A Mulher no Corpo – Uma análise cultural da reprodução, de Emily Martin; Women beware, Dr. Joseph Mercola; Tudo sobre a doença que pode ser causada pelo absorvente interno, M de Mulher; Choque Tóxico: Por Que Esta Mulher Está Processando um Fabricante de Absorvente Interno Depois de Perder a Perna, Vice; Tira Dúvidas: Coletores Menstruais, Blogueiras Feministas; Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estes; Sweetening The Pill, 2013; The Pill: Are you sure it’s for you?

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Sangue Bom: a revolução menstrual

Pare de rejeitar sua menstruação e dê o próximo passo da sua liberdade

No último post, falei sobre as diversas maneiras pelas quais nossa sociedade rejeita a menstruação. Seja no trabalho, nas rodas de amigos, na publicidade ou nos milhares de produtos e medicamentos feitos para “remediar” o “problema”, parece que só temos coisas ruins para falar desse acontecimento mensal na vida das mulheres.

Mas afinal, menstruamos e temos que lidar com isso. Diante desse cenário, como viver melhor a sua menstruação? Aqui vão algumas dicas.

  1. Aceite

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 Chega de nojinho. Menstruar é um acontecimento que todas as pessoas nascidas mulheres compartilham, salvo raras exceções. Ela não é suja, não é errada e faz parte da sua saúde – já que o fato de ela não vir geralmente é o que indica uma alteração. Em diversas sociedades tradicionais, é, inclusive, considerada um acontecimento sagrado e símbolo da força de criação feminina. E muitas mulheres a consideram o primeiro passo para a vida adulta, com uma carga simbólica muito poderosa. Ouça mais o seu íntimo, e menos o consenso social sobre a menstruação. Afinal, quem ganha com a ideia de que algo natural do seu corpo é sujo, falho, repugnante?

  1. Largue os absorventes

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Uma das principais causas da rejeição à menstruação está ligada ao péssimo desempenho dos absorventes descartáveis em nos ajudar nesse período. Além de caros, estes produtos “anti-odor” são desconfortáveis e muitas vezes cheiram mal quando usados, porque permitem que o sangue menstrual entre em contato com o oxigênio.

Eles abafam a região genital, dando uma sensação de calor e umidade, além de promoverem o ambiente perfeito para a proliferação de micro-organismos. Isso pode alterar o pH vaginal, propiciando o surgimento de infecções – e com elas, mais mau cheiro, corrimentos etc.  Sem falar no risco da terrível síndrome do choque tóxico.

Para perceber a diferença de menstruar sem usar absorventes descartáveis, você pode começar deixando a calcinha sujar um pouco (sem neura!) ou não usar nada (saia, shortinho largo) quando o fluxo estiver menor num dia de descanso, ou durante a noite. Vamos lá: uma eventual mancha sai com água morna; e esta pode ser uma maneira simples de ver como os absorventes são, de fato, muito desconfortáveis – e não a menstruação em si.

Para os dias de maior fluxo, opte pelos absorventes de pano ou pelo queridinho coletor. Aliás, o famoso copinho mereceria um blog só para ele, já que é um dos principais instrumentos para a autodescoberta das mulheres nos últimos tempos. Ele é ecologicamente correto, confortável, pode ser usado por até 12h seguidas, não causa reações alérgicas e o melhor: permite que você tenha um contato transformador com sua menstruação, tendo familiaridade com sua textura, quantidade e cheiro (não é fedida!!!).

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Ah, e muitas mulheres (incluindo eu) notam uma diminuição dos dias do fluxo e das cólicas com o coletor. A explicação ˜conspiratória~ seria pelo abandono dos absorventes descartáveis – que possuem em sua composição elementos tóxicos acusados de interferir no ciclo e nos fazer sangrar por mais dias. Mas o fato de o copinho fazer um vácuo que “suga” a menstruação já parece suficiente para abreviar a duração do fluxo.

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Sangue bom: o tabu da menstruação

Pare de rejeitar sua menstruação e dê o próximo passo da sua liberdade

A menstruação é um grande tabu contemporâneo. Relegada a reclamações sobre cólicas, disfarçada em pedidos constrangidos de absorventes emprestados e considerada um mero sinal da não-gravidez, sobre a menstruação temos uma realidade:

Só pode falar se for para falar mal

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É só observarmos as palavras associadas a ela: todas muito degradantes e que fazem um panorama do imaginário social a respeito.

[Regras]       [Monstra]       [Chico]       [Visita]       [Incômodo]       [Aqueles dias]       [Cheiro de peixe]       [Dita cuja]

Quem nunca ouviu um “ew” ao falar sobre isso no colégio, ou se sentiu constrangida ao precisar pedir um absorvente emprestado?

Outro exemplo é a obsessão da indústria farmacêutica – e, por consequência, dos médicos formados na sua sombra – por patologizar o ciclo menstrual. Um dos mais alardeados ~benefícios~ dos anticoncepcionais hormonais é, justamente, o controle/a diminuição do fluxo menstrual, e até mesmo sua suspensão. Uma doença que pode ser remediada. Um fardo para o qual existem infinitos produtos específicos “anti-odor”, para você estar “sempre protegida”, “sempre seca”, etc.

Aliás, não se iluda: o sangramento da pausa do anticoncepcional não é menstruação. Ele se chama de sangramento de privação, e mantê-lo foi uma escolha deliberada da indústria para dar uma sensação de naturalidade ao uso do medicamento.

O que essa realidade ignora é que a menstruação é, de fato, um dos principais sinais de saúde do corpo feminino. E os problemas relacionados a ela são, na verdade, sinais de que o corpo está em desequilíbrio – importantíssimos na hora de avaliarmos nossa relação com o mundo: saúde, relacionamentos, trabalho, e até conosco mesmas. Com a supressão desses sintomas, já não identificamos os desequilíbrios – e os mascaramos.

De fato, pode ser muito difícil ter que lidar com os sintomas do período pré-menstrual e menstrual, ainda mais porque não temos o menor incentivo para isso. Além da má fama social, no trabalho e na escola/faculdade a menstruação também não é tratada com naturalidade. Intervalos e espaços de descompressão são raridade; saídas recorrentes para o banheiro são mal vistas; e nós mesmas nos cobramos por não estar 100% empenhadas nas questões exteriores.

Tudo isso porque, no sistema capitalista, exige-se das pessoas estarem sempre produtivas, como máquinas; e no caso das mulheres, também belas e disponíveis.

Por isso mesmo, a TPM e a menstruação acabam vistas como um período de descontrole; ou ainda uma “frescura”, uma “desculpa” para trabalhar menos. Uma “fraqueza” tipicamente feminina.

O fato é que menstruamos e temos que lidar com isso. Diante desse cenário, como viver melhor a sua menstruação? É possível se libertar de verdade desse “fardo”?

 

[continue lendo]

 

Você já tentou parar com a pílula? – parte 2

Pode parecer surreal, mas estamos viciadas numa droga: a pílula anticoncepcional

Continuação desse texto. 

Mas, se a pílula não é o melhor contraceptivo, porque esse consumo obsessivo?

Já faz um bom tempo que a indústria farmacêutica sabe que o fator contraceptivo não é o grande diferencial da pílula. Isso porque, como vimos no último post, são diversos os métodos contraceptivos existentes – e a eficácia deles é muito similar. Para o seu próprio bem, a indústria escolheu focar nos chamados efeitos secundários da pílula para transformá-la em um medicamento de uso “obrigatório” para a mulher moderna.

A pílula anticoncepcional passou, então, a fazer parte dos chamados “medicamentos de bem-estar” (Lifestyle Drugs), drogas voltadas a questões que não ameaçam a vida ou trazem dor, mas que apresentam efeitos “desejáveis” ao usuário – e são legalmente prescritas e vendidas. Como qualquer outro produto, a chave do sucesso destes medicamentos é despertar a necessidade deles.

Provocar a sensação de ausência ou de deficiência do corpo, portanto, é fundamental para o mercado dessas drogas.

No caso da pílula, patologizam-se os efeitos das variações hormonais naturais do ciclo menstrual. Ou seja: a pílula é o remédio que vai corrigir o irregular, doente e incompleto corpo da mulher. Ser mulher é um pesadelo que precisa de tratamento.

As indicações da pílula vão, portanto, muito além da contracepção. Ela é a solução do problema de ser mulher: inchaço, acne, variações de humor, cólicas, a terrível síndrome dos ovários policísticos*, e mesmo a menstruação, são os sintomas a ser combatidos.

Claro que os sintomas são reais e impactam a vida de boa parte das mulheres. Mas, ao amenizar esses sintomas, a pílula não está tratando os problemas em sua origem: ela os mascara. A suspensão do ciclo hormonal natural causada por esse medicamento realmente melhora os sintomas dos desequilíbrios hormonais, mas não trata a causa dos problemas – tanto que eles reaparecem, com mais força, quanto paramos de tomar pílula. E isso pode ter consequências graves – para mulheres com SOP, por exemplo, significa uma enorme barreira para a gravidez. Para as outras, a dependência de um medicamento que traz riscos à saúde.

A introdução dos hormônios sintéticos bloqueia a função ovariana e impede a ovulação. Com isso, suspendem-se os sintomas mas também as funções dos hormônios naturais, que vão muito além da fertilidade em si.

Estima-se que a pílula intervém em mais de 100 funções do corpo feminino.

Entre os riscos mais famosos da pílula, estão os cardiovasculares, que incluem trombose, embolia pulmonar, AVC e ataque cardíaco; além do câncer de mama, de fígado, cervical, entre outros. Mas também existem outros efeitos colaterais, menos falados, que permeiam as discussões entre amigas e os consultórios médicos, e estão presentes na vida de quem toma pílula – e muitas vezes nem suspeita dela.

O uso da pílula antes dos 20 anos dobra o risco de câncer de mama.

Depressão, baixa ou nenhuma libido, dor de cabeça, tontura, alterações de humor, náusea, dor nas mamas, fadiga, dificuldade em desenvolver músculos. Deficiências nutricionais. A lista de impactos é enorme e a resposta dos nossos médicos costuma ser a mesma: troque a pílula. Mas, como falamos, a fórmula dos contraceptivos hormonais tem a mesma base**, e a origem dos problemas está justamente nos hormônios sintéticos, que são usados também no anel vaginal, no DIU hormonal, no adesivo e na injeção.

As mulheres que usam contracepção hormonal têm 2x mais depressão.

Um dos principais motivos para o abandono da contracepção hormonal é seu impacto sobre a saúde emocional – discussão que incide sobre a nossa autoconfiança, e por vezes passa como frescura para os que estão à nossa volta. Começando com 14 ou 15 anos, será que aos 25 ou 30 podemos imaginar como seríamos sem a pílula?

A questão é: não precisamos ser dependentes da pílula! Já passou da hora de parar de tomar esse remédio como se fosse água.

Não sou médica e minha intenção aqui é alertar para esse consumo impensado, a ideia da pílula-para-todos-os-problemas. Nenhum medicamento serve para todas, e nossa fertilidade não é uma doença. Há várias maneiras de lidar com os picos e vales dos hormônios com mais naturalidade, aceitação e protagonismo. É preciso conhecer outros métodos contraceptivos e terapias alternativas, aprender a ouvir nosso corpo e entendê-lo, afastando a ideia de ele está em descontrole. Essa pode ser uma experiência transformadora… Mas isso é assunto para outros posts!

 

P.S.: O objetivo desse texto é informar e questionar, nunca julgar a livre escolha de contracepção. Todo mundo tem direito de escolher o método contraceptivo (e de tratamento) que preferir.

 

Para saber mais:

1 How the Pill Became a Lifestyle Drug. American Journal of Public Health, 2015 2 Sweetening The Pill, 2013 3 The Pill Problem, 2013 4 Manual de Orientação Anticoncepção FEBRASGO, 2010 4 Planejamento familiar: um manual global para profissionais e serviços de saúde 5 The Pill: Are you sure it’s for you?, 2008

O nosso sexo

O emblemático "A origem do mundo" de Gustav Courbet, chocando a sociedade pela simples exibição do sexo feminino como é

O emblemático “A origem do mundo” de Gustav Courbet, chocando a sociedade pela exibição do sexo feminino como é

Em nossa sociedade, pouco ou nada se fala sobre os genitais femininos. Vulva, xoxota, boceta:  todos os nomes possíveis nos constrangem. Associada sempre ao obscuro, ao desconhecido – à intimidade e ao segredo. É perceptível: a relação pública que as mulheres estabelecem com suas partes íntimas é aquela da discrição absoluta. Isso quando não ocorre o mesmo em sua relação privada com o próprio corpo, com a vergonha de se ver e sentir.

Desse modo, escondemos ferozmente da vista alheia os absorventes, no caminho até o banheiro. Evitamos qualquer menção ao nosso sexo, especialmente na frente dos homens, porque a vulva é sempre suja ou pornográfica – o que pode dar na mesma. Insinua-se o mal cheiro, a presença abominável de pelos e as anatomias depreciáveis1. Ao contrário do que acontece com eles, a vulva não serve como sinônimo da força do gênero, como figura de linguagem para o vigor ou a violência. A vulva não é como o pau: não aparece, não é tema nem protagonista de metáforas. Ao urinar, abaixamos e a escondemos2; não a colocamos para fora na tentativa de reprimir ninguém3.

Pois bem, antes que comecem as explicações fundadas na natureza do corpo feminino, quais sejam uma anatomia notadamente “retraída” ou um comportamento mais “recatado”, vamos falar daquilo que muita gente não sabe. Diferentemente do que para a cultura ocidental moderna parece universal, ou seja, a vulva sempre associada  ao sexo, à pornografia e até à submissão, na realidade ela aparece dotada de muitos outros significados, em diversos pontos na história humana e pulverizada pelo globo.

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O orgulho e a sacralidade da vulva

Na arte pré-histórica, a figura mais habitualmente presente é a do sexo feminino, o que atraiu a atenção dos arqueólogos. A interpretação dessas imagens, entretanto, está submetida ao tempo do pesquisador, e à  orientação política de seu saber. Muitas vezes compreendida como símbolo da fertilidade e do sexo, a imagem da mulher e seu órgão sexual pode representar uma série de outras significações, à diferença do que delas se entende hoje. Uma das possibilidades é mesmo a do feminino sagrado4, em uma compreensão completamente divorciada do divino masculino que temos como paradigma.

A perversão parece uma insanidade judaico-cristã perto do orgulho exibido das sheela-na-gig, presentes em massa nas fachadas de edifícios medievais na Inglaterra, Irlanda, Gales, oeste da França, norte da Espanha e Escócia. Elas são imagens de mulheres afastando as pernas e mostrando a vulva, muitas vezes utilizando as mãos para facilitar a visão. Seu semblante é calmo e orgulhoso, seus genitais são representados em um tamanho grande.

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O historiador chocado e o escracho das bakweri

O gesto ana-suromai foi nomeado pelo célebre Heródoto, tendo encontrado no antigo Egito uma sociedade que entendeu como diametralmente oposta à sua. Ao contrário de sua Grécia patriarcal, o historiador presenciou um arranjo social em que as mulheres eram comerciantes e negociadoras, os homens teciam, e em alguns rituais religiosos como no da deusa Bubastis, as mulheres exibiam orgulhosamente sua vulva. O gesto de levantar as saias e mostrar o sexo está presente em diversas culturas por todo o mundo, da Itália à Índia, podendo representar a força, a fertilidade, a agressividade e espantar o mal.

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Uma das estórias mais interessantes que encontrei foi sobre a sociedade bakweri, que na segunda metade do século XX habitava uma região no oeste de Camarões, na África. De acordo com a tradição ritual local, as mulheres faziam a exibição coletiva de seus genitais ao homem que tivesse ofendido seu sexo. As mulheres da aldeia rodeavam o ofensor para exigir-lhe uma retratação imediata, e uma compensação material. Caso não obedecesse, elas começariam a dançar, entoando canções de conteúdo sexual e mostrando suas vulvas. Cantavam, por exemplo: “O titi ikoli é algo muito belo, e não merece insultos”. Titi ikoli pode ser, na língua bakweri, algo lindo, ou de valor incalculável. Pode ser também um palavrão. E também se associa aos genitais femininos, e com a divulgação dos segredos das mulheres.

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O assunto não termina aqui, nem poderia

Com todos esses exemplos, o que quero é demonstrar a diversidade de significados que podemos dar ao nosso corpo. Temos que falar da vulva, da vagina, da xana, da maneira como queremos. É muito difícil abordar esse tema tão pouco explorado, e ainda muito estigmatizado. Creio que cada tópico aqui poderia se transformar num novo texto, mas a proposta é mesmo trazer a riqueza do assunto. Comecemos a olhar, e a seguir essa investigação sobre o nosso sexo. Contribuições e ideias serão mais que bem vindas.

Os exemplos desse texto foram coletados no incrível livro de Catherine Blacklegde, A História da Vagina, que garimpei por acaso numa feira em Buenos Aires mas pode ser comprado na própria editora brasileira, em português. A esse respeito, também existe o mais recente livro da Naomi Wolf, que por enquanto só está disponível em inglês, mas a Folha publicou um pequeno trecho traduzido. Por fim, deixo o Grande Mural da Vagina, obra do escultor Jamie McCartney que tomou como molde as partes íntimas de centenas de voluntárias, com o intuito de mostrar a diversidade das formas femininas.

"The great wall of Vagina", de Jamie McCartney

“The great wall of Vagina”, de Jamie McCartney, mostra a beleza e a diversidade das formas contra o avanço da cirurgia plástica íntima

 

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Referências

1) Cirurgia plástica íntima é mania mundial que preocupa ginecologistas

2) O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir

3) Alunos da USP ficam pelados em trote para hostilizar feministas em São Carlos

4) Vênus, de Tatiana M. no ótimo blog Viva la Vulva.