Chega de Fiu Fiu e a força que existe em nós

A campanha Chega de Fiu Fiu contra o assédio nas ruas, criada pela ONG feminista Think Olga, virou filme. O documentário estreou ontem e tive o prazer de assistir em primeira mão. Não darei nenhum spoiler, mas falarei um pouco sobre as impressões que o filme causou em mim.

1. O assédio é interseccional, o feminismo tem que ser também

 

No documentário, acompanhamos as histórias de três mulheres muito diferentes: Rosa Luz, Raquel Carvalho e Teresa Chaves. Uma vive em Gama, cidade próxima a Brasília, outra em Salvador e a terceira em São Paulo, capital. Duas negras, uma branca. Duas magras, uma gorda. Duas pobres, uma rica. Duas cis, uma trans. Ao longo do filme, elas nos contam sobre os assobios, os toques, os olhares e as palavras que cruzam seus caminhos diários, por mais diferentes que possam ser. E se gente não entende que não existe feminismo sem incluir todas as três na luta – e tantas quantas formos -, nossa pauta estará incompleta.

2. Os homens são parte do problema – e da solução

Sabemos que são os homens os privilegiados na nossa sociedade patriarcal e machista. Eles são perpetradores do assédio – e, se é importante empoderar as vítimas, é fundamental desconstruir a masculinidade que legitima e incentiva esse tipo de comportamento. No filme, vemos um grupo de homens discutindo o que pensam sobre assédio, o que pode ser um pouco irritante. Imagina um bando de brancos falando o que pensam sobre racismo, se é ok ser racista de vez em quando? Pois é. Mas é neste espaço que ocorre a tomada de consciência e alguns deles começam a entender o problema. Não que a responsabilidade de educar deva ser das mulheres – esse é assunto para outro post – mas o problema precisa ser combatido em sua origem. E a origem é a masculinidade da forma como é construída hoje.

3. Assédio e agressão física têm a mesma origem

Enquanto as pessoas costumam questionar a validade das denúncias de assédio, mesmo quando há provas, a violência física geralmente é mais levada a sério, como em espancamentos e estupros. O que acaba passando batido é que as premissas contidas no assédio e na violência física de gênero são as mesmas: controle do corpo da mulher, domínio masculino sobre o espaço (necessidade de “marcar território” ou mostrar quem manda aqui) e uso da violência (física ou não) para demonstrar estes dois últimos. Assim, seja com um espancamento ou um assobio, a necessidade de colocar a mulher num patamar inferior – objetificando, expondo, fragilizando ou humilhando, é a mesma.

4. Nós somos nossa principal arma

Por fim, como a Jules Faria, fundadora da Olga, respondeu quando perguntada sobre o que mudou desde o início da campanha Chega de Fiu Fiu: não muito. O assédio continua grande. Juízes continuam descreditando as vítimas, a mídia relativiza a violência e as leis são as mesmas. Mas a discussão ficou mais madura. E ela – a Jules – e eu – a Rebeca – e a Rosa e a Raquel e a Teresa e tantas outras sabemos quantas de nós passamos pelas mesmas coisas. Sabemos que a culpa não é nossa. Sabemos que andar nas ruas é, sim, direito nosso. E que não importa a roupa que usamos, porque no fundo não é sobre nós individualmente. É sobre nós enquanto mulheres. E juntas, somos muitas. E muitas, somos fortes. E isso muda tudo.

Assista o trailer:

Ficha técnica:

Título: Chega de Fiu Fiu Direção: Amanda Kamanchek/Fernanda Frazão Ano: 2018 Duração: 73 minutos País: Brasil Falado em português Disponível também com legenda em inglês Classificação indicativa: 14 anos Som 5.1 Documentário Colorido 2048×858 Aspecto 2.39:1 Direção : Amanda Kamanchek e Fernanda Frazão Produção Executiva : Juliana Lemes e Lucas Kakuda Direção de Fotografia : Lucas Kakuda Direção de Produção e Ass. de Direção : Camila Biau Montagem: Cibele Appes Com: Rosa Luz, Raquel Carvalho e Teresa Chaves Convidadas especialistas: Djamila Ribeiro, Juliana de Faria, Luana Hansen, Margareth Rago, Nilceia Freire

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É preciso falar

 

Na rede, nos blogs, nas ruas. Mas também no tête-à-tête, na hora que acontece e com quem acontece.

Uma vez, eu estava esperando um ônibus para casa, já passava das 8 da noite, quando ouvi um homem gritando muito. Ele dizia insultos horríveis, como: você é burra, você faz tudo errado, eu só passo vergonha com você. Fui me aproximando, preocupada, com medo, com revolta. Era um homem alto, grande, gritando com uma mulher que carregava várias sacolas – todas as coisas dela. Eu fui chegando perto, não sei com que coragem, meio atordoada pela situação. Ele, percebendo minha aproximação, esbravejava que ela deveria ir embora logo com ele. A mulher permanecia imóvel.

Aterrorizada, mas firme, consegui balbuciar para a mulher: “Você não precisa ir. Não vai, não”. O homem, furioso, aumentou as ameaças mas não veio para cima de mim. Dizia que estava passando vergonha na rua por causa dela. Que iria reclamar com a mãe dela, e que ela ficasse esperta também com sua menina, porque isso não iria passar em branco. Ela se mantinha atônita, não se movia. Até que, como por um milagre, ele desistiu. Ela disse que não ia. Eu fiquei. Ele foi embora.

Devo ter dado sorte. Devo ter o santo forte, ou a lua estava na posição certa naquele momento. O que eu sei é que falei, e me mantive ali, ao lado dela. E isso foi importante para Elaine, com quem fiquei por mais uma hora depois, e que soluçava, grata, porque conseguiu enxergar em mim uma aliada, e teve coragem para não ir mais para casa com ele.

Na noite anterior, ela tinha sonhado com uma mulher em sua cama. E achava que era eu. Naquela noite, ela encontrou em mim a coragem que procurava em si mesma.

Ficar ao lado dela foi uma das experiências mais malucas que já passei. Eu poderia ter sido agredida. Ela poderia ter sido agredida. Talvez ela rejeitasse minha ajuda. E ele poderia voltar a qualquer momento. Mas não aconteceu assim.

Falar, sempre que pudermos, é importante. Em público, nas redes, nas ruas. Mas no dia a dia também. Na hora em que um homem interrompe a fala de nossa colega, na hora que vemos uma desconhecida ser assediada no metrô. A violência nos cerca, mas precisamos lembrar que não estamos sozinhas. E manter-nos ao lado de nós mesmas.

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